Os 6, 3b-6; Rm 4, 18-25; Mt 9, 9-13
Ao ler os profetas, tenho sempre a impressão de que, por vezes, o Cristianismo se apoiou nas linhas como castiguei por meio dos Profetas e vos matei com palavras da minha boca, em vez de Porque Eu quero a misericórdia e não o sacrifício, o conhecimento de Deus, mais que os holocaustos. Aquele “porque” nem sempre iluminou a forma do “castigo”, uma vez que na história do povo de Deus, muitas vezes, se preferiu o sacrifício à misericórdia e os holocaustos ao conhecimento de Deus. Por isso, a mensagem do Profeta Oseias é esta: Procuremos conhecer o Senhor. É este o caminho reto do qual nos vem a salvação, cantado pelo salmista.
A grande “machadada” no tronco infértil da dureza do coração, do qual faria parte uma leitura unilateral negativa do que os profetas denunciaram/anunciaram, foi a atitude constante de Jesus de olhar compassivo, em profundidade, o coração de cada pessoa (ai que nos falta tanto olhar para cada pessoa em partilhar e não só os que se colocam na fila da comunhão sacramental!). Com Jesus deu-se início à compreensão da desproporcionalidade na forma de agir de Deus (não à desproporcionalidade em si mesma, que sempre foi forma de agir de Deus, mas à possibilidade da compreensão humana da mesma, entenda-se!).
Agora, estou a imaginar aquele encontro entre Jesus e Mateus, no posto de cobrança: nem os seguidores do dinheiro, nem os seguidores de Jesus compreenderam este chamamento. Só o Mestre foi capaz de comportar aquele chamamento do diferente e da diferença. E o dom que antes servia para fazer algo contrário à vontade de Deus passou a estar ao seu serviço; e a tábua que era usada para contabilizar passou a ser usada para evangelizar; e a casa que servia para sofrer a solidão passou a ser o lar dos que comungam com o projeto inédito de Jesus, que veio chamar não os justos mas os pecadores, preferindo ─ como já Oseias anunciava ─ a misericórdia ao sacrifício.
A pedra
O distraído tropeçou nela.
O bruto usou-a como arma.
O empreendedor, usou-a na construção.
O camponês, cansado, fez dela um assento.
Para as crianças, foi brinquedo.
Drummond fez-lhe um poema.
Já David matou Golias, e Michelangelo extraiu-lhe a mais bela escultura….
Em todos estes casos, a diferença não esteve na pedra, mas no ser humano !
Não existem “pedras” no caminho que nós não possamos aproveitar para o nosso próprio crescimento.
Os pecados podem ser como as pedras. Jesus sabe distinguir o pecado do pecador, não deixando que o pecado obstrua de vez os seus dons. Não existem situações de pecado que o Senhor não possa transformar em caminho de salvação. O pecado pode ser início da conversão, não que se deva considerar o pecado uma coisa boa, mas pode ser o início de um levantar-se e seguir Jesus, já que Ele cumpre o projeto de Pai, o Eterno (ch)amante. É nesta esperança da promessa de Deus que (ch)ama que somos convidados, segundo o Apóstolo Paulo, a colocar toda a nossa confiança, já que, em Abraão, Deus foi capaz não só de lhe dar uma descendência natural, mas também uma descendência espiritual extraordinárias!
Que a partir desta Liturgia não tenhamos dúvidas de que a missão mais nobre que podemos imitar de Jesus é “misericordiar”, atraindo os pecadores para Ele, o único que os pode colocar ao seu serviço, como a todos os que já habitam a comunidade.
O Papa Francisco exorta: é preciso deixar-se misericordiar por Deus:
Cada um de nós é um eleito, uma eleita de Deus. Cada um de nós carrega uma promessa que o Senhor fez: ‘Caminha na minha presença, seja irrepreensível e eu lhe farei isso’. E cada um de nós faz alianças com o Senhor. Pode fazê-las, não quer fazê-las – é livre. Mas isso é um fato. E também deve ser uma pergunta: como sinto eu a eleição? Ou me sinto cristão por acaso? Como eu vivo a promessa, uma promessa de salvação no meu caminho, e como sou fiel à aliança? Como Ele é fiel?
Vatican News
Isso quer dizer que no caminho da eleição, rumo à promessa e à aliança, haverá pecados, haverá a desobediência, mas diante desta desobediência há sempre a misericórdia. É como a dinâmica do nosso caminhar rumo à maturidade: sempre há a misericórdia, porque Ele é fiel, Ele não revoga os seus dons. Os dons são irrevogáveis e isso tudo está interligado, por quê? Porque diante das nossas fraquezas, dos nossos pecados, há sempre a misericórdia e quando Paulo chega a esta reflexão, faz um passo a mais: não de explicação a nós, mas de adoração.
Penso que pode nos fazer bem, a todos nós, pensar hoje na nossa eleição, nas promessas que o Senhor nos fez e como eu vivo a aliança com o Senhor. E como me deixo – permitam-me a palavra – misericordiar pelo Senhor, diante dos meus pecados, das minhas desobediências. E, no final, se eu sou capaz – como Paulo – de louvar Deus por aquilo que me deu, a cada um de nós: louvar e fazer aquele ato de adoração. Mas jamais se esquecer: os dons e a chamada de Deus são irrevogáveis
