navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

Tb 3, 1-11a. 16-17a; Mc 12, 18-27

Os saduceus rejeitavam a ideia da Ressurreição, que fazia parte da espera messiânica, e negavam a imortalidade da alma. Eram céticos em relativamente à vinda messiânica. Estavam a ser oportunistas, meramente apoiados no cânone do Pentateuco e relativizando a literatura apocalíptica recente e a tradição oral. Os saduceus acreditavam que um homem ressuscitava quando o seu irmão lhes “suscitava” descendência. Para eles, a eternidade de um homem confundiam-se com a conservação da espécie. Sofriam de realismo pouco ou nada esperançoso. O argumento apresentando no evangelho de hoje fazia parte da casuística dos doutores da Lei, a antiga regra do “levirato” ou do casamento com o cunhado, que se descreve assim, segundo o Pentateuco: “Quando dois irmãos residirem juntos e um deles morrer sem deixar filhos, a viúva não irá casar com um estranho, o seu cunhado é que se unirá a ela e a tomará como mulher, segundo o costume do levirato. Ao filho primogénito que ela tiver pôr-se-á o nome do irmão morto e não se extinguirá o seu nome em Israel” (Dt 25,5-6). Portanto, para os saduceus a única ressurreição que existia era esta, da perpetuação da linhagem humana expressa no nome. O resto era sem sentido.

Para Jesus, a fé na Ressurreição é a fé no poder de Deus. Deus tem o poder para criar tudo novo. O crente não deve perder-se nas arquiteturas racionalistas da fantasia humana. Porque Deus é um Deus de vivos e não de mortos. A fé de Jesus não é uma projeção deste mundo num outro mundo criado pela imaginação. Pelo contrário: a fé é abertura a Deus e faz que o totalmente Outro crie o totalmente outro.

Não foi só aos saduceus que custou relativizar o casamento em comparação com a vida nova da Ressurreição. Ainda hoje, nomeadamente na comunidade dos crentes (e os saduceus também faziam parte do grupo dos “crentes” daquele tempo) custa muito lidar com a instituição matrimonial em confronto com a vida futura. Por defeito ou por excesso de consideração, acaba-se por substituir o objetivo pelo acessório ou o centro pelo periférico, a casa pelos andaimes quanto à hora de habitar o céu definitivamente. Pergunte-se aos cônjuges de um Matrimónio o que pensam sobre o que é desde já considerarem-se irmãos, como inspira o Livro de Tobias! Alguns responderão “credo!” Ou então, coloquem alguns na hipótese de perpetuarem a sua relação com o cônjuge no céu, após a passagem pela morte! Alguns também dirão “credo!”

No Evangelho, Jesus parece ser claro quando à consideração do casamento como instrumento para alcançar, na vida futura, a hipótese de ser “como os anjos nos Céus”. A instituição do Matrimónio cristão deu passos na linha da perfeição deste instrumento, mas ainda não é a máxima perfeição, diante da vida nova da Ressurreição. Quando dizemos que o Sacerdócio Ministerial não é um estado de vida na ordem dos fins, mas dos meios ou instrumentos, estamos a dizer o mesmo do Matrimónio. Mais na ordem dos fins está o Batismo que nos enxerta já em Cristo para a vida eterna.

A negação da vida eterna está na perpetuação de um meio ou instrumento para além do que é devido pelo mistério de Deus, ou seja, para além da morte. Ainda que os dados da fé nos ajudam a compreender que o Reino já se instaura aqui, não estamos autorizados a criar um céu à imagem da terra, correndo o risco de diminuir o poder de Deus que as Escrituras nos ajudam a vislumbrar.

Por outro lado, garantir, apoiar e defender um estado de vida “até que a morte nos separe” (isto vale tanto para os Matrimónios como para qualquer estado de Vida Consagrada) significa que a construção da morada eterna não é fácil se andarmos a mudar de andaimes todos os dias, mas melhorá-los e garantir-lhes segurança, no que toca à opção fundamental, motivações, sentimentos, atitudes e comportamentos que garantem a vida eterna. Para acreditarmos que um estado de vida, assumido no que depende de nós como um bom meio para um bom fim, primeiro teremos de acreditar, arriscando, no fim que é Deus e no que depende d’Ele e só d’Ele. É insustentável, do ponto de vista cristão, viver um Matrimónio sem esperança da Ressurreição. O mesmo vale para o sacerdócio ministerial! Quantas famílias, por causa da suposta preservação da sua espécie, afastam os seus de qualquer tipo de consagração, mesmo a do Matrimónio de fecundidade cristã. Quantas vidas não são em crescimento até à versão que nos faz mais à imagem e à semelhança de Deus só porque o ser humano só acredita nas suas ideias e raízes pouco profundas que acabam por não beber nas fontes da verdadeira fé.

Acredito que no céu, o Matrimónio entre Maria e José já não seja meramente um andaime, dado o papel que exerceram na obra divina da salvação. O mesmo penso dos Santos e dos carismas que o Espírito Santo nos doou com as suas vidas.