navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

Gn 3, 9-15.20; Jo 19, 25-34 ─ Na memória de Santa Maria, Mãe da Igreja

À Virgem santa Maria foi atribuído o título de «Mãe da Igreja», porque deu à luz a Cabeça da Igreja e se tornou a Mãe dos redimidos, quando seu Filho ia morrer na cruz. O papa são Paulo VI confirmou solenemente a mesma designação, na alocução aos Padres do Concílio Vaticano II, no dia 21 de novembro de 1964, e decidiu que todo o povo cristão honrasse, agora ainda mais, com este santíssimo nome, a Mãe de Deus. No dia 11 de fevereiro de 2018 o papa Francisco inscreveu esta memória no Calendário Romano geral na segunda-feira depois de Pentecostes.

… este nome pertence à genuína substância da devoção a Maria, porque se justifica perfeitamente na própria dignidade da Mãe do Verbo Encarnado. Efectivamente, assim como a maternidade divina é a causa pela qual Maria tem uma relação absolutamente única com Cristo e está presente na obra da salvação humana operada por Cristo, assim também da maternidade divina brotam as relações que intervêm entre Maria e a Igreja; já que Maria é a Mãe de Cristo, que, desde o primeiro instante da sua Encarnação no seu seio virginal uniu a si como Cabeça o seu Corpo místico, que é a Igreja. Maria, portanto, como Mãe de Cristo, é também Mãe dos fiéis e de todos os pastores, isto é, da Igreja.

Papa Paulo VI

Há dias, refletia o texto do Evangelho de hoje com a minha Equipa de Nossa Senhora, dentro do tema “Eles não têm mais companhia”, num ano em que todos os temas são paráfrases da afirmação de Maria nas bodas de Caná “Eles não têm mais vinho”: “Eles não têm mais casa”, “Eles não têm mais pátria”, “Eles não têm mais educação”, “Eles não têm mais saúde”, “Eles não têm mais diálogo”, “Eles não têm mais respeito à Criação”, para todos nos dispormos a acolher, beber e distribuir o “vinho novo” que Jesus nos oferece.

“Vinho novo” é, também, a companhia junto de quem se sente só, no sentido daquela solidão que é uma das pobrezas mais profundas que o ser humano é capaz de experimentar, fruto de um isolamento causado pela falta de amor. A Madre Teresa de Calcutá sabia que esta era a “fome” mais terrível que um ser humano poderia sofrer.

O próprio Jesus pôde sujeitar-se a esta solidão pela humanidade, para que fosse consumada toda a Escritura. O sentido causativo daquela “hora” está bem patente, de onde transborda o seu hálito divino, o Espírito Santo. A partir daquela hora, já ninguém estará só. Nesta hora, nasceu a solitude, que é a possibilidade de ninguém se sentir só, mesmo na mais extrema solidão, porquanto o Espírito de Jesus não tem limites, porque por obediência ao Pai sopra onde quer. Naquela hora, nasceu também a solicitude que faz parte integrante do ser da Igreja, como casa de acolhimento de todos os que se sentem sós e dos que vivem, por opção, a solitude.

Solitude e solicitude são palavras muito próximas. O dicionário não sabe distinguir solitude de solidão. Enquanto esta nos pode fechar em nós próprios, deixando que o isolamento nos leve ao desespero; a solitude, ─ com a atitude da consideração, desvelo, cuidado ou diligência ─ vivida à luz do Espírito que Jesus nos dá, ajuda-nos a viver de uma completude que pode transbordar em solicitude para com quem vive só. É o que permite da pobreza humana partilhar a riqueza de Deus.

É pela serenidade que Maria nos ensina a passar da possibilidade da solidão à solitude e da solitude à solicitude. É o que vemos nos passos que Ela percorreu na vida de Cristo, entre a Anunciação e o Calvário. E entre a Ressurreição de Jesus e a vida da Igreja em todos os tempos, pelas invocações e títulos que a Ele os fiéis dedicam, nas circunstâncias mais variadas do viver e do sofrer humanos.

O Papa Francisco afirma que “ninguém pode enfrentar a vida isolado; precisamos de uma comunidade que nos apoie, que nos auxilie e dentro da qual nos ajudemos mutuamente a olhar em frente. Sonhemos com uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos dessa mesma terra que nos abriga a todos, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos” (FT 8). “Os conflitos locais e o desinteresse pelo bem comum são instrumentalizados pela economia global para impor um modelo cultural único. Esta cultura unifica o mundo, mas divide as pessoas e as nações, porque ‘a sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos’. Encontramo-nos mais sozinhos do que nunca neste mundo massificado, que privilegia os interesses individuais e fragiliza a dimensão comunitária da existência” (FT 12).

Hoje, peço pelos que vivem e se sentem realmente sós, para que o Espírito de Deus sopre na consciência de alguém que se aproxime para lhes dar companhia e restaurar no seu coração a alegria de viver. Rezo também para que haja, no viver dos cristãos, mais “reconciliação” entre a liturgia eucarística e a liturgia da vida, para que dos Sacramentos os homens de hoje possam ver transbordar o amor de Deus.