navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

Acabámos de celebrar a memória de S. Francisco de Sales. Parece-me que a sua especial existência nos merece uma reflexão:

Hoje, tem-se a sensação de que a violência transborde a todos os níveis. A mais quotada teoria científica tenta interpretar a realidade e o evolucionismo identificou na selecção natural o mecanismo do progresso. Na vida, vence quem melhor se adapta. O peixe grande come o peixe pequeno.

Aqueles que apostaram na ciência como única solução para a paz fizeram da paz um “acordo entre duas guerras” (cf. Karl Clausewitz, teórico prussiano das estratégias militares). Hoje, passou-se do cip-cip da natureza ao bip-bip da tecnologia, com uma humanidade aguerrida e dividida, talvez por via do genoma, em duas categorias: os aplaudidos Winners (vencedores) destinados a evidenciar-se, e os pobres Losers (perdedores) destinados a ser subtraídos.

Entretanto, mesmo sem Darwin se ter apercebido, há dois mil anos que foi introduzido um novo princípio evolutivo para dar vida à humanidade nova. É a estratégia d’Aquele que se auto-definiu dizendo: «aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração» (Mt 11,29). O Cristo Jesus, o qual se inclinou diante dos débeis e dos Losers, não querendo «quebrar a cana fendida, nem apagar a mecha que fumega» (Mt 12,20). Propõe um tipo de homem novo que, sob o olhar do Pai celeste, tome conta com ternura dos seus semelhantes. E, apesar deste seu modo de ocupar o tempo, torna-se num Winner. E parece ter sempre mais imitadores e seguidores, muitas vezes entre os não cristãos.

Francisco foi esse homem “manso e humilde de coração”. Mostrou-nos como muitos outros seguidores de Jesus Cristo que é a mansidão que faz evoluir a humanidade. Ele, como Cristo, manifestou-se em todas as etapas da sua vida como um perdente que venceu. Como dizia G. Bernanos, «não existe um reino dos vivos e um reino dos mortos: existe o Reino de Deus. E nós, vivos e mortos, estamos todos dentro». Os Losers e, se bem que com um pouco mais de cansaço, também os Winners.

S. Francisco de Sales vem recordar-nos que a verdadeira história da Igreja (não tanto aquela das suas instituições), como também o futuro da humanidade, resultam de histórias e projectos de mansos.

A Joana de Chantal dizia: «É necessário fazer tudo por amor e nada pela força». Daqui resulta, quer para a educação e formação humanas, quer para um caminho de santidade, a afirmação, na dimensão humana, daquilo que é verdadeiro e bom, segundo a legitimidade de cada vocação. A docilidade é de preferir ao rigor e a paciência à agitação.