Editora Nascente, Lisboa 2025 (5ª edição), 358 pág.

Ao ler a Autobiografia do Papa Francisco tive a sensação de contemplar o seu pontificado de 12 anos semeado no desenrolar na sua história pessoal e de vida cristã/vocacional. Todos os temas que encabeçam os títulos da autobiografia são como que chamadas para episódios da sua vida e, ao mesmo tempo, aspetos do seu pontificado, nas relações para dentro e fora da Igreja.
Memória é uma qualidade que assiste a Francisco, na forma como conta a sua história, não só no sentido de se lembrar de muitos detalhes da sua vida familiar e de vida cristã, mas também do valor aí semeado por Deus, reconhecido pelo autor como pegada de Deus. Memória, para ele, é algo aberto, sem fronteiras, para além de recordações.
Na sua história pessoal é fácil de encontrar a fundamentação para o seu cuidado com os migrantes e refugiados. É fácil de compreender porque abriu caminhos de relação da Igreja com o mundo. É fácil de compreender porque não quis ser um padre diocesano/secular, preferindo a vida comunitária, e porque não quis ficar a viver no palácio de São Dâmaso, confessando a sua fobia à solidão. Também se percebe que o seu leque de relacionamentos amigáveis e ecuménicos está semeado na variedade dos seus primeiros relacionamentos pessoais e familiares da tenra idade e da juventude. É fácil de compreender os temas e os tons dos seus escritos magisteriais, sobretudo a Laudato Si’ e a Fratelli Tutti, pela sua matriz formativa científica e a sua visão de mundo, com a capacidade de regresso à fonte ancestral abraâmica da relação do ser humano com o único Deus verdadeiro e da fraternidade universal que em em Abraão a sua referência religiosa. A sua história familiar e os seus primeiros passos vocacionais também deixam entrever a sua importância que deu como Papa à relação entre os jovens e os idosos.
Enfim, foi um homem que navegou constantemente na “barca” da “Esperança” construída com as “tábuas” de positividade e de abertura aos outros, remada com as atitudes da alegria e da coragem, conduzida pelo leme da fé em Jesus Cristo.
