Miserere nobis

De Bob Hurd, escutamos Miserere nobis. A proposta musical desta semana acompanha-nos na meditação da “parábola do filho pródigo”, melhor chamada “do pai misericordioso” (cf. Lc 15,11-32).

Dois são os pólos que se evidenciam na parábola: o arrependimento do filho mais novo que decide regressar à casa do pai a longa espera, a alegria e a atitude festiva do pai. A atitude do filho mais velho também nos ajuda a concluir que se pode sair da casa do pai sem fisicamente se ter saído!

Aspecto importante será a memória da casa do pai que o filho mais novo retém no seu coração, cujo remorso lhe faz lembrar o verdadeiro caminho de regresso: o humilde arrependimento e a atitude concreta da conversão.

No entanto, esse não é o único aspecto da conversão! A atitude do pai que aguarda paciente a sua chegada, o seu abraço caloroso e a festa, fazem parte da conversão.

Existe a tendência, mesmo entre os cristãos, de conceber a conversão sublinhando a atitude do arrependimento do homem. Esta é um pressuposto, sim, mas não o único elemento a festejar! O amor do Pai que espera sempre e pacientemente por cada um dos seus filhos: um que sai fisicamente, mas mantendo um fundo fiel do coração; e outro que, não saindo fisicamente, revela enfim um coração incapaz de não entrar na casa da festa.

Ao homem não basta uma simples execução externa da vontade de Deus. Este divino Pedagogo pretende conduzir-nos à liberdade plena, à nossa identidade de seres livres, sem ter medo de uma liberdade que se caracterize por uma «autonomia dependente», capaz de escolher responsavelmente segundo o Seu coração e de estar diante d’Ele passivos e ao mesmo tempo activos na construção do Seu Reino1.

Modelo de Filho é Jesus Cristo: saiu da casa do Pai, sem deixar o coração do Pai; permaneceu no Seu amor, aceitando a missão de se identificar com os pecadores, sem, no entanto, se identificar com o pecado2.

Neste dia em que a liturgia quaresmal nos convida à alegria, olhemos só para a frente, tendo assumido o passado. A Páscoa está próxima!

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1 Cf. Maurizio COSTA, Direzione Spirituale e Discernimento, Ed. ADP, Roma 2002, p. 46.
2 Cf. HEb 2,17.

Oração que confronta e cura!

        A oração dos salmos e toda a oração da liturgia das horas em geral, é oração que nos confronta verdadeiramente com a verdade. Sendo inspirada, como palavra de Deus posta na boca do homem, os salmos reflectem muitas situações da vida humana a caminho.

        Oração que confronta, porque umas vezes o salmista é o “homem ideal” a atingir, quando diz: «Tenho praticado a rectidão e a justiça» ou «eu sigo todos os vossos preceitos» (Sl 118). A boca de quem recita esta oração é veículo da resposta de Deus ao homem que, na mesma oração, se revela na sua debilidade, ao dizer «fiz o mal diante dos vossos olhos» (Sl 50) e a sua confiança na cura de Deus que aí se manifesta, pois «É firme a sua misericórdia para connosco» (Sl 116).

        Com a oração dos salmos, pode proporcionar-se aquele processo de mudança de vida através do mecanismo de defesa chamado “identificação projectiva” que é um «processo mediante o qual o sujeito se liberta de aspectos importantes do próprio eu “depositando-os” (isto é projectando-os) sobre o que acompanha, para depois se reapropriar daquilo de que se tinha libertado, mas em versão modificada, isto é, correcta e evangelizada pelo que acompanha»1.

        Ora, tratando-se de Deus ― a Quem dirigimos a nossa oração ― as nossas palavras pronunciadas são-nos retribuídas com um novo sentido de vida. Se um salmo o homem se expressa e sente limitado, no salmo a seguir ou cântico é chamado a sentir um novo caminho à sua frente no qual é convidado a dar um primeiro passo ou a perseverar. Esta consideração acerca do valor pedagógico da oração é ainda mais forte quando proclamamos a Palavra que é «como a espada de dois gumes» (Heb 4,12) e ao mesmo tempo segurança e luz para o nosso viver (cf. Lc 8,16ss).

        Esta dinâmica faz com que haja mais correspondência, em nós, entre o “bem aparente” e o “bem real”, ou seja: o bem que realmente sigo com a acção não é só uma ordem da minha mente, mas tem origem no coração; não é só exterior, mas também interior e… é permanente!

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1 Embora este mecanismo de defesa seja comummente classificado como negativo, aqui é descrito numa versão pedagógica positiva. Cf. A. MANENTI, Vivere gli ideali/1, fra paura e desiderio, EDB, Bologna 1988, p. 180.

Acompanhar no autêntico crescimento cristão

Pergunto se a maioria das pessoas que professam a sua fé e a celebram na liturgia (para não falar dos que crêem, mas que não praticam) já se deram conta que essa prática tem um objectivo muito próprio: crescer na identidade que significa ter Jesus Cristo como valor mais importante no centro das suas vidas; dando conta que essa prática não pode ser “de manutenção”, nem mágica, nem “de amuleto”.

Não são as qualidades físicas (do que se vê) que me dão identidade, mas o meu ser criado à imagem de Deus. É aqui que entra a questão do autêntico crescimento cristão, que implica a capacidade, da parte de cada crente, de assimilar os dados revelados a que temos acesso pela Sagrada Escritura e usá-los como “grelha de leitura”, como modo de interpretar a vida de todos os dias1.

Será assim que poderemos melhor propor uma actividade de acompanhamento vocacional: como obra de mediação (é Deus que chama e cada interlocutor individualmente responde!), conduzindo cada acompanhado (que se deixa acompanhar!) ao reconhecimento da verdade de si próprio a partir do fio condutor que liga os factos e as circunstâncias, às vezes banais e até contraditórias ― uma vez acolhidos e assumidos ― harmonizando-os com a Palavra de Deus.

Por mais actividades de promoção vocacional que se façam, sem um “dar as mãos” com a pastoral catequética, familiar, juvenil, etc., ― alinhando todos estes organismos e serviços num mesmo método que poderia aprender ou reaprender esta capacidade de ajudar os interlocutores de Deus a ler a sua história a partir da sua revelação de amor que chama em vista de uma resposta2 ― parece-me difícil que essa promoção vocacional tenha muita força!…

Para não terminar em tom de pessimismo ― mas passando do realismo à esperança ― dêmos ouvidos ao Espírito, primeiro protagonista do acompanhamento vocacional3.

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1 Cf. Roberto ROVERAN, Per un’efficace pedagogia: i colloqui de crescita vocazionale, in: Tredimensioni, 2/2004, p. 178.

2 Uma aplicação desta pedagogia sobretudo no acompanhamento vocacional poderá ser fomentada com o contributo profundo de A. CENCINI ao apresentar-nos o modelo histórico-bíblico (autobiografia), modelo mariano (aspecto genático), modelo Paulino (aspecto dinâmico) e modelo evangélico (tensão cristocêntrica) do dinamismo da fé, in: IDEM, I sentimenti del figlio, pp. 117-133.

3 Cf. Pastores Davo Vobis, 69.

88 teclas para tocar o infinito!

No filme La leggenda del pianista sull’oceano, de Giuseppe Tornatore, o personagem principal chamado Nineteen Hundred (“1900”), acaba por morrer dentro do navio que estava para ser demolido. Sem ter coragem de sair desta sua “casa”, pois nascera lá, encontrado num berço de cartão deposto em cima do piano ― a sua identidade era somente a amizade dos que o ajudaram a crescer, a sua música e os que a escutavam ― explica ao seu melhor amigo, no momento da dramática despedida, a sua escolha:

        «Estou habituado a tocar nas 88 teclas do piano; são finitas. Eu é que sou infinito e a música que faço a partir delas também é infinita. Cresci aqui e não tenho outra identidade.

        Quando tentei sair lá fora (do navio), o que me assustou não foi o que vi, mas o que não vi! O exterior parace-me um “piano” de teclas infinitas. Esse cabe a Deus tocar. É um piano com teclas demais para mim. Por isso, escolho ficar…»

        É verdade! O piano tem 88 teclas e com elas foi composta e interpretada música estupenda como a que ouvimos esta semana neste blog, da banda sonora do filme referido, composta por Ennio Morricone.

       Também é verdade que o mundo, o que vemos à nossa volta, ou seja, a Criação, é um “piano” grande demais para o homem tocar. A este, Deus deu somente “88 teclas”, chamando-o a colaborar naquela maravilhosa obra (cf. Génesis 1,28).

       Esta reflexão não pretende enclausurar o leitor num “navio”, mas a considerar que a partir dos nossos limites nos é dada pela graça de Deus a possibilidade de vivermos uma aventura infinita. Cabe a cada um de nós vivê-la conscientes desses limites, assumindo-os, e, ao mesmo tempo, na certeza do que Deus realiza a partir de nós com os seus dons.

       Não ter medo de percorrer esta aventura (exortação sobretudo dirigida aos jovens de hoje) significa ― sem termos de tocar mais do que “88 teclas” ― decidir que “música” original havemos de compor com elas, tocando as nossas melodias de acordo com a harmonia misteriosa do infinito.

A grande fé…

… será aquela que vê Deus nas pequenas coisas

e acontecimentos do quotidiano,

Aquela fé que nos faz pôr a questão:

Como Deus interfere na minha vida?

 

A resposta a esta questão nas dinâmicas espirituais como o exame de consciência, a lectio divina ou a simples meditação da Palavra de Deus, poderá seguir o modelo histórico-bíblico, em que a vida se torna um lugar de leitura iluminada da fé, levando também, a uma maturação da própria fé. A própria história é a prova mais convincente, porque mais pessoal, da presença de Deus e de um Deus não neutro e… igual para todos, mas com um rosto, uma atitude, uma palavra, um gesto que o crente sente orientado para si, inconfundível e irrepetível, assim como inconfundível e irrepetível é a existência de cada pessoa (cf. Amedeo CENCINI, I sentimenti del figlio, 118).

       A Bíblia é a história-mãe de todas as histórias de fé. Contém um fundo icónico (de ícone) que nos ajuda a interpretar a própria existência a partir de cada acontecimento vivido individualmente ou em comunidade.

Desintoxica a tua vida espiritual em 40 dias

     «Trata-se de um fenómeno bastante recente que se generalizou. Muitas pessoas na nossa sociedade levam a cabo dietas de emagrecimento, inscrevem-se num ginásio, programam um fim-de-semana num balneário ou simplesmente realizam exercícios físicos em cada dia. Com tudo isto, pretendem conseguir um melhor tom vital, purificar o seu corpo e a sua mente para se sentir melhor.

     E se fossemos capazes de purificar-nos também das toxinas espirituais, isto é, de todos esses hábitos, recordações indesejadas, tentações e distracções, que nos impedem de desfrutar a vida como verdadeiros seguidores de Jesus e pessoas felizes e integradas espiritualmente?»

     Peter GRAYSTONE, Desintoxica tu vida en cuarenta días, Sígueme, Salamanca 2007.

A glória escondida numa coroa de espinhos

     A meditação do terceiro mistério doloroso fez-me contemplar a antítese gerada pela oferta livre de Cristo que, ao aceitar aquela coroa, experimenta o misto de sofrimento e antecipação daquela glória que Lhe estava destinada.

     Coroação de espinhos e transfiguração são ambos momentos que antecedem a via-sacra. Um aparenta dor, outro aparenta luz, mas têm na base o mesmo valor real: a Vida nova da Ressurreição.

     É, ainda, necessário atravessar esta ponte, a que chamamos via-sacra, para alcançar essa Vida. Não desanimemos! Jesus Cristo já não é só o aparentemente transfigurado, mas o Ressuscitado! Da sua transcendência deixou-nos as marcas para Lhe seguirmos o caminho.

     Percorramos cada passo da nossa “via” com uma vontade “sacra”, ou seja, com o sentimento no coração: “faça-se a Tua vontade”. A partir daqui, os ritos têm mais probabilidades de expressar este Mistério e de nos conduzir à Vida.

Faz a tua tenda!

     No monte da transfiguração, Jesus desvelou aos seus discípulos a glória que Lhe estava prometida pelo Pai. Este é um momento tão importante para a fé dos discípulos como o é para a última etapa que Jesus está para percorrer: a via-sacra para o calvário e o dom da sua vida por nós.

   Cada via-sacra tem uma meta e um ponto de partida, uma glória a atingir ― prometida pelo Pai ― e um momento inicial de luz. Cada boa acção, cada sacrifício que o crente faz em favor dos outros, é precedida por esta luz que dimana da transfiguração de Jesus. A sua decisão em dar livremente a sua vida por nós é um raio de luz que vem do alto!

     Daqui resulta a necessidade de construir, cada um, a sua “Tenda da Palavra”. A vida do cristão necessita de momentos frequentes de acesso e contemplação da luz que vem pela leitura/escuta e meditação orante da Palavra de Deus. Para isso, a Bíblia não pode estar na estante, mas num lugar bem visível, por onde passe todos os dias. Tem lugar excepcional na proclamação da Palavra na comunidade dominical, mas precisa de ser “estendida” pela semana forma, nos ambientes e nas atitudes.

     Voltamos a escutar “Transfigure us, oh Lord” de Bob Hurd.

Resolver a ambiguidade!

No primeiro domingo da Quaresma escutámos o texto das tentações de Jesus no deserto (ler Lc 4, 1-13). Riquesa, fama e domínio resumem todas as tentações pelas quais Jesus foi tentado, pelas quais os seus discípulos também passaram e às quais a história nos apresenta circunstâncias mais ou menos evidentes de a Igreja ter sido submetida.
Hoje, também são essas as nossas tentações, que correspondem ao ter, saber e poder. Estes valores não são maus nem bons. Os momentos ou circunstâncias de tentação servem para sermos postos à prova diante destes valores, ou seja, para vermos para que lado è que cai a balança: para o amor próprio ou para o amor gratuito aos outros.
Jesus, que era rico, fez-se pobre (cf. 2Cor 8,9). Por isso, na circunstância do início da sua vida pública, escolheu o “lado da balança” certo parq servir a humanidade: pobreza, humildade e seviço. A quaresma abre-nos os olhos para a realidade dos dois caminhos: o da conversão ou o da perversão.
Na verdade, só as coisas boas é que nos podem tentar, na sua ambiguidade. As coisas realmente más não nos fascinam! A tentação é ocasião de clarificar as nossas opções. Enfim, o momento de liberdade!

Estou no Google, logo existo!

Há dias, uma pessoa ao pé de mim “disparou” com esta máxima moderna que, como muitas outras, tira partido da força da antiga máxima cartesiana e revelam mais uma forma de existir.
Já não é novidade para quem costuma usar este meio de comunicação que o motor de pesquisa “Google” teve a sua aparição de forma a não terminar mais o seu sucesso no meio de tantos outros. Escrevo este post para os leitores que por aqui passarem, não directamente para fazer publicidade ao tão afamado motor de pesquisa que já me é muito útil no dia-a-dia, mas para partilhar um facto verdadeiro que e parece de grande relevo espiritual e propõe uma reflexão que me parece ser urgente na relação do testemunho de fé/evangelização e este meio de comunicação:
Como já repararam, este ousado “porto seguro” tem uma função principal que deu origem: ser também um “púlpito para escutar”. A razão de ser da perseverança neste serviço “virtual” de escuta dos dramas daqueles que utilizam este meio para procurar a solução para os seus problemas (numa percentagem que me ocupa algum tempo da semana a responder e alguma reflexão pessoal) é o facto de muitas das pessoas que “escuto” neste “púlpito” chegam até aqui através da pesquisa, no Google, da palavra “padre”. E não é uma nem duas, mais de 60% das pessoas que chegam a partilhar os seus dramas com urgência de serem atendidas.
Daqui tiro algumas conclusões, por ordem de importância:
1. Há muitas pessoas a precisar do padre como homem de Deus, a quem possam contar os seus graves problemas e de quem esperam uma resposta, no mínimo, de esprança;
2. Embora os Sacramentos não se possam celebrar através no mundo virtual, pois esta não pode substituir a presença real (cf. Igreja e a Internet, n. 9), no entanto a evangelização não pode hoje prescindir das novas tecnologias de comunicação, pois estas meritam uma espiritualidade própria, e o mundo, especialmento nas pessoas mais jovens, usa-as.
3. Este facto estatístico também revela um facto real: as pessoas procuram Deus de formas variadas. No entanto, a forma institucionalizada de acolhimento entrou em crise, ou seja, a disponibilidade dos padres para acolher as pessoas e escutar os seus problemas já não é a mesma, gerando-se uma situação onde a procura é maior do que a oferta.
4. Como escreveu o Rev. D. Ilídio Leandro, Bispo de Viseu, aos seus sacerdotes em quarta-feria de cinzas, «Há necessidade de montar “consultórios” abertos, com liberdade na agenda, no coração e no relógio.» e ainda «As pessoas têm o direito de saber os horários de atendimento e de presença do seu pároco, em lugares acessíveis e disponíveis para a marcação de serviços, para um diálogo informal, para uma direcção espiritual, para a reconciliação fora dos dias e datas previstas e para outros eventuais contactos.» (ler mensagem completa).
5. Por fim, decido que vale a pena a manter, mesmo que pago (porque isto não é um simples Blog), este serviço pastoral de escuta/aconselhamento on-line, remetendo, quanto possível, as pessoas para formas mais reais e responsabilizadoras de resolver os seus problemas.