Dizer "vocação" a jovens com mochila

«Nenhum jovem tira a mochila nova do envólocro sem uma vocação, uma “voz” qualquer que chama a partir, para aventurar-se longe de casa»*.

O desejo de percorrer uma aventura acontece sempre que essa voz “fala” a partir de um desdobrável, um grupo de amigos, um evento eclesial, o convite de um padre em missão… motivações diversas que provocam uma mesma procura: encontrar-se a si mesmo. , encontrar razões de vida e de esperança, através de uma experiência diferente dos lugares e tempos quotidianos.

Existe, portanto, uma “consonância” entre a mochila-nas-costas e o anúncio vocacional. Quem procura e aceita deitar-se à aventura é aberto a respostas. Quase que não é necessário anunciar a vocação a estes jovens: têm necessidade de reconhecê-la dentro de si, no próprio desejo de um horizonte mais vasto e de uma vida mais autêntica.

«Talvez lhes sirva um “espelho” que saiba restituir nitidamente a imagem da alma»*. É esta hoje a carência!

Com alguma “canseira” se encontra um qualquer adulto que, como o misterioso viandante de Emaús**, saiba meter-se ao lado do jovem viajante-com-mochila, para aquecer-lhe o coração restituindo-lhe sonhos e esperanças. Jovens de ontem, esquecestes as vossas velhas e gloriosas mochilas no sótão?!
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* P. GIULIETTI, Dire “vocazione” a giovani con lo zaino, in «Rogate Ergo» 6/7 (2007), p. 3.
** Lc 24,13.

Humildade

é força sob controlo!

Muitas vezes falamos de pessoas passivas como sendo humildes. É uma forma simpática de as elogiarmos, embora intimamente as consideremos bastante ineficazes. Nalgumas culturas raramente se admira a humildade, encarando-se como o contrário da agressividade que se associa ao êxito.
Passividade é recusar fazer uma afirmação por medo. Humildade é fazer uma afirmação por amor. Era essa a mensagem de Jesus quando afirmou: «Se alguem te baer na face direita, oferece-lhe também a outra» *. Não disse: «Se alguém te bater na face, vira costas e vai-te embora». Instruiu especificamente as pessoas para tomarem uma posição e afirmarem-se. Jesus preferiu uma vida breve cheia de humildade a uma vida longa cheia de passividade e de medo**.

Celebramos neste 12º Domingo do Tempo Comum a Solenidade da Natividade de S. João Baptista. Nasceu também para uma vida não muito longa, mas marcada por uma humildade determinada em apontar para o Messias. Um exemplo!

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* Mt 5,39

** Cf. M. W. BAKER, O maior Psicólogo de Todos os Tempos. Jesus e a Sabedoria da Alma, ASA Ed., Porto 2006, pp. 35-37.

Evasão da realidade

«Proclama-se com entusiasmo e convicção o radicalismo evangélico e com a mesma força defendem-se comportamentos e mentalidades diametralmente opostos. Não é raro o caso de jovens empenhadíssimos no campo eclesial que, chegados ao mundo profissional, seguem de forma obstinada critérios de ganho, prestígio, oportunismo…»[1].

Por evasão podemos entender o movimento (que pode ser instintivo) levado a cabo por uma pessoa para evitar um estímulo incómodo[2].
Perguntemos, pois: em que espaços e dimensões da nossa vida decidimos viver os mesmos valores evangélicos? Não será de os fazer irromper em todas os lugares e actividades? De que realidade fugimos? Para que realidade caminhamos?
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[1] A. MANENTI, Vivere gli idelai/1 – Fra paura e desiderio, Edizioni EDB, Bologna 1988, p. 20. [2] Cf. F. DORSCH, Diccionario de psicologia, Herder, Barcelona 1985, p. 300.

Experiência espiritual cristã

Deus chama-nos a autotranscendermo-nos num amor por Ele e pelo próximo semelhante àquele que inspirou a vida de Cristo, a um amor, pois, que não nasce do coração humano, mas que nos foi revelado na mensagem bíblica em geral e das palavras e exemplos de Jesus Cristo e, por isso, um amor infuso no coração humano pela graça divina.
Esta afirmação evidencia-nos que o importante não é amar, mas o modo “cristiforme” de amar, no “como”. O amar “como” Cristo ama pode ser também iniciado do “como” nos comportamos nos acontecimentos do nosso quotidiano. Vejamos o exemplo do S. Francisco quando se encontrou com um leproso: O leproso continuou leproso. Francisco continuou a sentir “repugnância instintiva” por aquele gánero de pessoas. Nada mudou e, porém, mudou tudo!
Os valores naturais (cheiro, doença, susceptibilidade…) não sofrera alteração, mas mais do que esconder os valores transcendentes (amar “como” Cristo ama), fizeram-nos germinar.
Enfim, a experiência espiritual não produz uma mudança de natureza. O que é mau odor continua mau… mesmo depois de uma conversão interior. A experiência dos sentidos permanece intacta, mas não é o último ponto de chegada. É e permanece repulsão, mas não só: é também interpelação religiosa, sem necessidade de submeter a um jogo de prestígio de si nem o objecto daquela experiência, nem o sujeito que a faz. Uma ocasião fortuita da vida é mediação espiritual quando o valor natural que essa imediatamente exprime permenece aberto,ao menos como possibilidade, a um valor transcendente. O leproso permanece um leproso (valor natural) mas também um próximo para amar (valor transcendente). Francisco permaneceu alguém que sentia repugnância, mas ao mesmo tempo inquietado… A presença em nós dos valores transcendentes permite viver as experiências dos sentidos como mediações. Neste sentido, as experiências fazem crescer ou permanecem experiências “mudas”…*
As ocasiões podem, porém, perder-se!
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* Cf. LAM VU, «Francesco d’Assisi e il lebbroso. Psicodinamica dell’esperienza spirituale», in: Tredimensioni 2 (2007), pp. 155-156.

Como ajudar no acesso ao mundo dos desejos?

a) A exortação não basta!
Esta faz apelo ao esforço e à determinação: pede a vontade como acto. Mas é necessário reforçar a vontade como estado ou predisposição: recomeçar a esperar. Para isto, é necessário “tocar” a pessoa no ponto em que o “órgão do futuro” (desejo) e o “órgão do passado” (memória) se confrontam e apoiá-la para que a vontade de fazer prevaleça sobre a tendência de desistir. Sem liberdade interior, não se pode fazer uma escolha concreta.
b) Relativizar o presente.
“Nem tudo o que reluz é ouro”, diz-se. Então quer dizer que muito da realidade que nos apresentam não passa de propósitos efémeros. É necessário, na foamação, propôr um quadro de referência que saiba dar sentido àquilo que realmente é importante. Aquilo que não tem poder de dar a vida, é para desfocalizar. Ex.: é melhor acentuar a atenção no estudo do que nos esames, pois estes não valem nada sem aquele!… Ocorre perguntar: O que significa o que faço hoje?
c) Desejar sem medo.
É preciso acabar com a mentalidade passiva do “deve-se fazer; não há alternativas; é inútil esperar, etc…”. É melhor ser-se um sonhador do que um cético, um iludido que um resignado. Um comportamento bom é válido na medida em que é fruto de um desejo da bondade. Mais que ser bons é importante ter vontade de tornar-se bons. Pergunto: Se tu fosses livre, que coisa gostarias de fazer?
d) Interpretar os desejos.
Uma vez que a pessoa tomou contacto com aquilo que lhe dá prazer de fazer, é necessário ajudá-la a distanciar-se desse conteúdo para o avaliar. Que desejos sinto: fracos, imediatos, espontâneos? Ou afectivos no sentido pleno, com um simbolismo transcendente? Têm a ver com objectivos terra-a-terra que não me acrescentam nada do que já sou? Ou levam-me a tornar-me noutra pessou que ainda não sou? Esta ainda não é uma avaliação de tipo moral. Trata-se de calibrar a liberdade interior e a intensidade da vida. Que significado me oferece este ou aquele desejo? Quem é o “pai” desse desejo?
e) Patrões do próprio destino.
A pessoa deve aceitar a inevitabilidade da tomada de posição. Não se pode fugir da necessidade da escolha. A programação da própria vida não pode ser deixada ao acaso, à influência dos amigos, fruto da moda, do capricho. Deve ser produto do livre escolha. A cada pergunta, cada um deve propôr as suas próprias respostas.
f) A perseverança.
Quando a pessoa aceita projectar-se segundo uma decisão livremente tomada, deve depois esercitar-se na vontade (agora sim!) que comprove e dê continuidade ao bom desejo. O consenso da vontade significa dar um significado e continuidade à escolha. A força da vontade não está ao serviço da repressão mas é aquela faculdade de permitir toar decisões e de organizar a existência segundo aquelas dicesões.
g) A dependência inevitável.
Liberto dos condicionamentos, recuperada a liberdade de encaminhar o nosso coração segundo os nossos desejos, somos finalmente livres de dar aquilo que queremos. Aqui damos conta que a liberdade não e fim em si mesma, ms é para ser doada. O homem, livre de desejar, vê-se obrigado a confiar-se a qualquer coisa ou a alguém fora de si. Não se pode viver em pura liberdade: ou se tem um Deus ou um ídolo! Recorde-se que a dependência de Deus deixa-nos livres; diferente é quem quer viver de pura autonomia: acaba por deixar que um ídolo se lhe imponha e o escravize. É a aceitação do paradoxo: ser livres para renunciar livremente à própria liberdade! A alternativa é a escravidão no seu aspecto mais humilhante: não poder desejar por iniciativa própria.
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Para aprofundamento: A MANENTI, Vivere gli ideali. Fra paura e desidério, EDB, Bologna 1988.

Educar para o desejo

Se as pessoas não vivem à altura dos ideais não é porque não queiram, mas porque não podem desejá-lo. Têm o futuro pré-anotado: dos pais que já ao colo programaram o seu destino, ou talvez na moda que propina as regras do que se há-de fazer e pretender, talvez do outro… Mas o facto é sempre esse: falta a capacidade de desejar automaticamente, de escolher livremente como gastar a própria vida. Sendo bloqueado o desejo, permanece bloqueada cada decisão pessoal. Na verdade, a acção responsável da pessoa começa com um desejo.
Como ajudar no acesso ao mundo dos desejos? (ma próxima reflexão)

Cantus firmus

Dietrich Bonhoeffer, numa das suas últimas cartas do cárcere de Tegel, poucos meses antes de ser condenado à morte por causa da firmeza do seu testemunho e da sua denúncia, escreveu assim ao amigo pastor E. Bethe: «É o perigo de cada forte amor erótico que se perca, para si próprio, a polifonia da vida. Ou seja: Deus e a sua eternidade querem ser amados com todo o coração; não de forma que fique comprometido ou debilitado o amor terreno, mas em certo sentdo como cantus firmus, em relação ao qual as outras vozes da vida soam como contraponto; um destes temas contrapontísticos, que têm a sua plena autonomia, e que são contudo relacionados ao cantus firmus, é o amor terreno (…). Onde o cantus firmus é claro e distinto, o contraponto pode desenvolver-se com o máximo vigor»*.
Esta imagem de Bonhoeffer ajuda-nos a conceber o celibato para o Reino de Deus como uma melodia que se o sacerdote canta como que “em uníssono” com o cantus firmus que é o amor de Deus. E ainda que o sacerdote não cante sempre “afinado” essa melodia, é chamado, no entanto, a aceitar que neste canto Ele manifesta a grande polifonia da vida do Reino.
A opção pelo celibato não pode ser só abstinência, mas opção positiva; não pode ser só ascética, mas estética; nem somente deve ser algo que deva ser só dito, mas também “cantado”…**
É esta alegria em cantar este louvor a Deus que Se manifesta do padre ou religioso que poderá ser um critério para avaliar a qualidade que quem fez esta opção de vida!
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* D. BONHOEFFER, Resistenza e resa. Lettere e scritti dal carcere (Resistência e submissão. Cartas e escritos da prisão), Milano 1988, 373.
** Cf. A. CENCINI, Per amore, EDB, Bologna 1994, p. 28.

Um Deus Amor que desce ao "tempo da vida comum" para fazer comunhão connosco!

A Solenidade da Santíssima Trindade mostra-nos um Deus que é Uno e Trino, é Comunhão, que nos ama com um amor que é ao mesmo tempo “eros” e “agape”*, um Deus que Se manifesta na natureza humana através dos desígnios da família e da diversidade.
É um Deus que se “delicia em estar no meio dos homens”**. Por isso, o desafio deste “tempo comum”, depois do “planalto” da Páscoa, é avançarmos ao encontro desta presença de Deus Pai, Filho e Espírito Santo, através de um caminho de abertura pessoal.
Não é fácil esta abertura, pois implica de cada um de nós quebrar algumas resistências da mente e do coração para o que devemos analizar os nossos desejos e valores professos.
No entanto, saibamos que o princípio desta experiência espiritual implica primeiro aceitar, para depois avançarmos na compreensão dos mistérios da Vida que Jesus nos veio revelar***. Diferente é a experiência dos sentidos, na qual precisamos de estudar e conhecer primeiro para depois fazermos a aquisição ou tomarmos uma decisão.
O Espírito guiar-nos-á zelosamente****, à medida que nos abrirmos a este desígnio do amor de Deus, no conhecimento da Sabedoria que vem do alto. Quando soubermos apreciar esta presença divina no tempo comum, então daremos também mais valor aos tempos fortes do ano, seremos também capazes de lidar com os momentos altos e momentos de crise da nossa vida, porque estamos conscientemente certos de que Deus Comunhão está!
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* PAPA BENTO XVI, Deus Caritas Est, n. 3.
** Pr 8,31.
*** Jo 16,12.
**** Jo 16,13.

Não te sintas diminuído!

Acabámos de viver o Pentecostes que faz a passagem entre o Tempo Pascal e o Tempo comum. Retomando o caminho deste tempo litúrgio, somos convidados a não deixar de invocar e de viver a festa do Espírito Santo! Afinal, este tempo presente é o tempo do Espírito que nos atrai para Deus Pai, por Jesus Cristo.

O convite a não te sentires diminuído significa que, para além de todas as hierarquias, tu também tens um lugar concreto que só pode ser opupado por ti, na Igreja e no mundo. És chamado a viver um ministério, quer dizer, a exercer um serviço em favor dos outros.

Observa os dons que do Espírito recebeste. Não fiques parado! É preciso desejar sem medo! Existe uma certa ansiedade ligada à descoberta consciente – em si e no ambiente – do novo, do estranho. Àquela exisitem ligadas resistências que não nos deixam crescer no sentido da transcendência. Muitas explicações psicoanalíticas de fizeram a estas resistências*.

Importa, pois, homem e mulher que queres autotranscender-te, ateres-te a esta dinâmica: 1. Conhceres-te por dentro, as tuas resistências, donde vêm, a que problemas estão ligadas? 2. Por outro lado, reveres os teus ideais de vida. Onde estão assentes? Já ponderaste so os podes alcançar e como? Enfim, que a tua oração seja marcada pela dupla certeza, diante das tuas debilidades: «Meu Deus, amaste-me primeiro!» e «Como posso, Senhor, resistir ao teu amor?»

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* Cf. A. MANENTI, Vivere gli ideali. Fra paura e desiderio/1, Ed. EDB, Bologna 1988, pp. 106-108.

O pensar psicológico

A psicologia do profundo, para além de observar e descrever os comportamentos, é já em grau de intuir nesses a presença de um substrato ontológico que faz de um facto psíquico um acontecimento humano. Em relação às cièncias empíricas e teóricas, trata-se de uma radical reviravolta no modo de ler a realidade. O pensar psicológico, sempre empírico e ligado aos detalhes que contêm o viver quotidiano, pode no entanto colher a essencial humanidade que, no banal, se exprime sem nunca coincidir com esse. Conhecendo a interioridade, única e irrepetível dos indivíduos, pode conhecer o funcionamento universal do coração humano.

Este pensar psicodinâmico mete a psicologia em diálogo inevitável com as ciências que definem a essência do homem. Segere também um método educativo que, enquanto estima o modo actual de viver da pessoa, provoca-a a adequá-lo à riqueza ontológica que ela possui por natureza*.
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* A. MANENTI, Il pensare psicologico. Aspetti e prospettive, Edizioni EDB, Bologna 1997.