A pessoa não é um problema para resolver…

… mas um mistério a descobrir!

É um desafio este mistério, sobretudo para os educadores, estejam eles em que quadrantes estiverem. Quando a consciência nos começa a ditar o “exame” habitual sobre o que transmitimos ou não transmitimos e sobre a forma como o fizemos, convém não esquecer o seguinte critério de avaliação: de futuro não podemos contestar, na conduta dos educandos, a ausência dos valores que não receberam…

Educar, então, significará “tirar fora” os valores que se encontram dentro do sujeito, liderando um processo desde fora, mas que acontece dentro. Se pensarmos nestes termos, sem anular o efeito dos grupos e das comunidades, sentiremos que é mais importante a pedagogia da indução, ou seja, provocar que o valor se manifeste de dentro para fra do sujeito do que pela dedução que significará ditar os valores e esperar pacientes até que se manifestem.

Educar é ser referência, ou seja, referir valores, incutindo-os mais pela maneira de viver (o famoso exemplo) do que pela menção dos mesmos.

Boa sorte a todos os educadores. No final de contas, também podemos ser referência quando não corre tudo bem e assumimos os nossos erros!

Homenagem a Oscar Romero

«Jamais pregámos a violência. Dó a violência do amor, a que deixou Cristo cravado numa cruz, a que assume cada um para vencer os seus egoísmos e para que não haja desigualdades tão crueis entre nós.
É a vilência do amor, a da fraternidade, a que quer converter as armas em foices para o trabalho.»

Oscar Romero, 27 de Novembro de 1977

Como em cada ano, no dia 24 de Março, muitos cristãos e cristãs de todo o mundo recordam o assassinato de Oscar Romero. – Que tem a vida e a morte deste homem para ser para muitos “um homem de Deus cuja humildade e valentia chamam à conversão, ao compromisso, à acção?”

Voz entre dois silêncios

É assim que Maurizio Costa (S.J.) fala da oração cristã:

«O silêncio eterno do Pai de onde a voz parte e onde termina, e o silêncio do coração do homem, que a recebe e, através da força do Espírito, a restitui como dom de si sempre mais pleno» (Edizioni EDB, Bologna 1998).

São José

Servo do Pai,
Acolhedor do Espírito,
Olhou por Jesus.

Justo e casto,
Ocupado no trabalho, a
Sagrada família sustentou.
Esposo de Maria!

Miserere nobis

De Bob Hurd, escutamos Miserere nobis. A proposta musical desta semana acompanha-nos na meditação da “parábola do filho pródigo”, melhor chamada “do pai misericordioso” (cf. Lc 15,11-32).

Dois são os pólos que se evidenciam na parábola: o arrependimento do filho mais novo que decide regressar à casa do pai a longa espera, a alegria e a atitude festiva do pai. A atitude do filho mais velho também nos ajuda a concluir que se pode sair da casa do pai sem fisicamente se ter saído!

Aspecto importante será a memória da casa do pai que o filho mais novo retém no seu coração, cujo remorso lhe faz lembrar o verdadeiro caminho de regresso: o humilde arrependimento e a atitude concreta da conversão.

No entanto, esse não é o único aspecto da conversão! A atitude do pai que aguarda paciente a sua chegada, o seu abraço caloroso e a festa, fazem parte da conversão.

Existe a tendência, mesmo entre os cristãos, de conceber a conversão sublinhando a atitude do arrependimento do homem. Esta é um pressuposto, sim, mas não o único elemento a festejar! O amor do Pai que espera sempre e pacientemente por cada um dos seus filhos: um que sai fisicamente, mas mantendo um fundo fiel do coração; e outro que, não saindo fisicamente, revela enfim um coração incapaz de não entrar na casa da festa.

Ao homem não basta uma simples execução externa da vontade de Deus. Este divino Pedagogo pretende conduzir-nos à liberdade plena, à nossa identidade de seres livres, sem ter medo de uma liberdade que se caracterize por uma «autonomia dependente», capaz de escolher responsavelmente segundo o Seu coração e de estar diante d’Ele passivos e ao mesmo tempo activos na construção do Seu Reino1.

Modelo de Filho é Jesus Cristo: saiu da casa do Pai, sem deixar o coração do Pai; permaneceu no Seu amor, aceitando a missão de se identificar com os pecadores, sem, no entanto, se identificar com o pecado2.

Neste dia em que a liturgia quaresmal nos convida à alegria, olhemos só para a frente, tendo assumido o passado. A Páscoa está próxima!

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1 Cf. Maurizio COSTA, Direzione Spirituale e Discernimento, Ed. ADP, Roma 2002, p. 46.
2 Cf. HEb 2,17.

Oração que confronta e cura!

        A oração dos salmos e toda a oração da liturgia das horas em geral, é oração que nos confronta verdadeiramente com a verdade. Sendo inspirada, como palavra de Deus posta na boca do homem, os salmos reflectem muitas situações da vida humana a caminho.

        Oração que confronta, porque umas vezes o salmista é o “homem ideal” a atingir, quando diz: «Tenho praticado a rectidão e a justiça» ou «eu sigo todos os vossos preceitos» (Sl 118). A boca de quem recita esta oração é veículo da resposta de Deus ao homem que, na mesma oração, se revela na sua debilidade, ao dizer «fiz o mal diante dos vossos olhos» (Sl 50) e a sua confiança na cura de Deus que aí se manifesta, pois «É firme a sua misericórdia para connosco» (Sl 116).

        Com a oração dos salmos, pode proporcionar-se aquele processo de mudança de vida através do mecanismo de defesa chamado “identificação projectiva” que é um «processo mediante o qual o sujeito se liberta de aspectos importantes do próprio eu “depositando-os” (isto é projectando-os) sobre o que acompanha, para depois se reapropriar daquilo de que se tinha libertado, mas em versão modificada, isto é, correcta e evangelizada pelo que acompanha»1.

        Ora, tratando-se de Deus ― a Quem dirigimos a nossa oração ― as nossas palavras pronunciadas são-nos retribuídas com um novo sentido de vida. Se um salmo o homem se expressa e sente limitado, no salmo a seguir ou cântico é chamado a sentir um novo caminho à sua frente no qual é convidado a dar um primeiro passo ou a perseverar. Esta consideração acerca do valor pedagógico da oração é ainda mais forte quando proclamamos a Palavra que é «como a espada de dois gumes» (Heb 4,12) e ao mesmo tempo segurança e luz para o nosso viver (cf. Lc 8,16ss).

        Esta dinâmica faz com que haja mais correspondência, em nós, entre o “bem aparente” e o “bem real”, ou seja: o bem que realmente sigo com a acção não é só uma ordem da minha mente, mas tem origem no coração; não é só exterior, mas também interior e… é permanente!

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1 Embora este mecanismo de defesa seja comummente classificado como negativo, aqui é descrito numa versão pedagógica positiva. Cf. A. MANENTI, Vivere gli ideali/1, fra paura e desiderio, EDB, Bologna 1988, p. 180.

Acompanhar no autêntico crescimento cristão

Pergunto se a maioria das pessoas que professam a sua fé e a celebram na liturgia (para não falar dos que crêem, mas que não praticam) já se deram conta que essa prática tem um objectivo muito próprio: crescer na identidade que significa ter Jesus Cristo como valor mais importante no centro das suas vidas; dando conta que essa prática não pode ser “de manutenção”, nem mágica, nem “de amuleto”.

Não são as qualidades físicas (do que se vê) que me dão identidade, mas o meu ser criado à imagem de Deus. É aqui que entra a questão do autêntico crescimento cristão, que implica a capacidade, da parte de cada crente, de assimilar os dados revelados a que temos acesso pela Sagrada Escritura e usá-los como “grelha de leitura”, como modo de interpretar a vida de todos os dias1.

Será assim que poderemos melhor propor uma actividade de acompanhamento vocacional: como obra de mediação (é Deus que chama e cada interlocutor individualmente responde!), conduzindo cada acompanhado (que se deixa acompanhar!) ao reconhecimento da verdade de si próprio a partir do fio condutor que liga os factos e as circunstâncias, às vezes banais e até contraditórias ― uma vez acolhidos e assumidos ― harmonizando-os com a Palavra de Deus.

Por mais actividades de promoção vocacional que se façam, sem um “dar as mãos” com a pastoral catequética, familiar, juvenil, etc., ― alinhando todos estes organismos e serviços num mesmo método que poderia aprender ou reaprender esta capacidade de ajudar os interlocutores de Deus a ler a sua história a partir da sua revelação de amor que chama em vista de uma resposta2 ― parece-me difícil que essa promoção vocacional tenha muita força!…

Para não terminar em tom de pessimismo ― mas passando do realismo à esperança ― dêmos ouvidos ao Espírito, primeiro protagonista do acompanhamento vocacional3.

_______________

1 Cf. Roberto ROVERAN, Per un’efficace pedagogia: i colloqui de crescita vocazionale, in: Tredimensioni, 2/2004, p. 178.

2 Uma aplicação desta pedagogia sobretudo no acompanhamento vocacional poderá ser fomentada com o contributo profundo de A. CENCINI ao apresentar-nos o modelo histórico-bíblico (autobiografia), modelo mariano (aspecto genático), modelo Paulino (aspecto dinâmico) e modelo evangélico (tensão cristocêntrica) do dinamismo da fé, in: IDEM, I sentimenti del figlio, pp. 117-133.

3 Cf. Pastores Davo Vobis, 69.

88 teclas para tocar o infinito!

No filme La leggenda del pianista sull’oceano, de Giuseppe Tornatore, o personagem principal chamado Nineteen Hundred (“1900”), acaba por morrer dentro do navio que estava para ser demolido. Sem ter coragem de sair desta sua “casa”, pois nascera lá, encontrado num berço de cartão deposto em cima do piano ― a sua identidade era somente a amizade dos que o ajudaram a crescer, a sua música e os que a escutavam ― explica ao seu melhor amigo, no momento da dramática despedida, a sua escolha:

        «Estou habituado a tocar nas 88 teclas do piano; são finitas. Eu é que sou infinito e a música que faço a partir delas também é infinita. Cresci aqui e não tenho outra identidade.

        Quando tentei sair lá fora (do navio), o que me assustou não foi o que vi, mas o que não vi! O exterior parace-me um “piano” de teclas infinitas. Esse cabe a Deus tocar. É um piano com teclas demais para mim. Por isso, escolho ficar…»

        É verdade! O piano tem 88 teclas e com elas foi composta e interpretada música estupenda como a que ouvimos esta semana neste blog, da banda sonora do filme referido, composta por Ennio Morricone.

       Também é verdade que o mundo, o que vemos à nossa volta, ou seja, a Criação, é um “piano” grande demais para o homem tocar. A este, Deus deu somente “88 teclas”, chamando-o a colaborar naquela maravilhosa obra (cf. Génesis 1,28).

       Esta reflexão não pretende enclausurar o leitor num “navio”, mas a considerar que a partir dos nossos limites nos é dada pela graça de Deus a possibilidade de vivermos uma aventura infinita. Cabe a cada um de nós vivê-la conscientes desses limites, assumindo-os, e, ao mesmo tempo, na certeza do que Deus realiza a partir de nós com os seus dons.

       Não ter medo de percorrer esta aventura (exortação sobretudo dirigida aos jovens de hoje) significa ― sem termos de tocar mais do que “88 teclas” ― decidir que “música” original havemos de compor com elas, tocando as nossas melodias de acordo com a harmonia misteriosa do infinito.

A grande fé…

… será aquela que vê Deus nas pequenas coisas

e acontecimentos do quotidiano,

Aquela fé que nos faz pôr a questão:

Como Deus interfere na minha vida?

 

A resposta a esta questão nas dinâmicas espirituais como o exame de consciência, a lectio divina ou a simples meditação da Palavra de Deus, poderá seguir o modelo histórico-bíblico, em que a vida se torna um lugar de leitura iluminada da fé, levando também, a uma maturação da própria fé. A própria história é a prova mais convincente, porque mais pessoal, da presença de Deus e de um Deus não neutro e… igual para todos, mas com um rosto, uma atitude, uma palavra, um gesto que o crente sente orientado para si, inconfundível e irrepetível, assim como inconfundível e irrepetível é a existência de cada pessoa (cf. Amedeo CENCINI, I sentimenti del figlio, 118).

       A Bíblia é a história-mãe de todas as histórias de fé. Contém um fundo icónico (de ícone) que nos ajuda a interpretar a própria existência a partir de cada acontecimento vivido individualmente ou em comunidade.

Desintoxica a tua vida espiritual em 40 dias

     «Trata-se de um fenómeno bastante recente que se generalizou. Muitas pessoas na nossa sociedade levam a cabo dietas de emagrecimento, inscrevem-se num ginásio, programam um fim-de-semana num balneário ou simplesmente realizam exercícios físicos em cada dia. Com tudo isto, pretendem conseguir um melhor tom vital, purificar o seu corpo e a sua mente para se sentir melhor.

     E se fossemos capazes de purificar-nos também das toxinas espirituais, isto é, de todos esses hábitos, recordações indesejadas, tentações e distracções, que nos impedem de desfrutar a vida como verdadeiros seguidores de Jesus e pessoas felizes e integradas espiritualmente?»

     Peter GRAYSTONE, Desintoxica tu vida en cuarenta días, Sígueme, Salamanca 2007.

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