Como ajudar no acesso ao mundo dos desejos?

a) A exortação não basta!
Esta faz apelo ao esforço e à determinação: pede a vontade como acto. Mas é necessário reforçar a vontade como estado ou predisposição: recomeçar a esperar. Para isto, é necessário “tocar” a pessoa no ponto em que o “órgão do futuro” (desejo) e o “órgão do passado” (memória) se confrontam e apoiá-la para que a vontade de fazer prevaleça sobre a tendência de desistir. Sem liberdade interior, não se pode fazer uma escolha concreta.
b) Relativizar o presente.
“Nem tudo o que reluz é ouro”, diz-se. Então quer dizer que muito da realidade que nos apresentam não passa de propósitos efémeros. É necessário, na foamação, propôr um quadro de referência que saiba dar sentido àquilo que realmente é importante. Aquilo que não tem poder de dar a vida, é para desfocalizar. Ex.: é melhor acentuar a atenção no estudo do que nos esames, pois estes não valem nada sem aquele!… Ocorre perguntar: O que significa o que faço hoje?
c) Desejar sem medo.
É preciso acabar com a mentalidade passiva do “deve-se fazer; não há alternativas; é inútil esperar, etc…”. É melhor ser-se um sonhador do que um cético, um iludido que um resignado. Um comportamento bom é válido na medida em que é fruto de um desejo da bondade. Mais que ser bons é importante ter vontade de tornar-se bons. Pergunto: Se tu fosses livre, que coisa gostarias de fazer?
d) Interpretar os desejos.
Uma vez que a pessoa tomou contacto com aquilo que lhe dá prazer de fazer, é necessário ajudá-la a distanciar-se desse conteúdo para o avaliar. Que desejos sinto: fracos, imediatos, espontâneos? Ou afectivos no sentido pleno, com um simbolismo transcendente? Têm a ver com objectivos terra-a-terra que não me acrescentam nada do que já sou? Ou levam-me a tornar-me noutra pessou que ainda não sou? Esta ainda não é uma avaliação de tipo moral. Trata-se de calibrar a liberdade interior e a intensidade da vida. Que significado me oferece este ou aquele desejo? Quem é o “pai” desse desejo?
e) Patrões do próprio destino.
A pessoa deve aceitar a inevitabilidade da tomada de posição. Não se pode fugir da necessidade da escolha. A programação da própria vida não pode ser deixada ao acaso, à influência dos amigos, fruto da moda, do capricho. Deve ser produto do livre escolha. A cada pergunta, cada um deve propôr as suas próprias respostas.
f) A perseverança.
Quando a pessoa aceita projectar-se segundo uma decisão livremente tomada, deve depois esercitar-se na vontade (agora sim!) que comprove e dê continuidade ao bom desejo. O consenso da vontade significa dar um significado e continuidade à escolha. A força da vontade não está ao serviço da repressão mas é aquela faculdade de permitir toar decisões e de organizar a existência segundo aquelas dicesões.
g) A dependência inevitável.
Liberto dos condicionamentos, recuperada a liberdade de encaminhar o nosso coração segundo os nossos desejos, somos finalmente livres de dar aquilo que queremos. Aqui damos conta que a liberdade não e fim em si mesma, ms é para ser doada. O homem, livre de desejar, vê-se obrigado a confiar-se a qualquer coisa ou a alguém fora de si. Não se pode viver em pura liberdade: ou se tem um Deus ou um ídolo! Recorde-se que a dependência de Deus deixa-nos livres; diferente é quem quer viver de pura autonomia: acaba por deixar que um ídolo se lhe imponha e o escravize. É a aceitação do paradoxo: ser livres para renunciar livremente à própria liberdade! A alternativa é a escravidão no seu aspecto mais humilhante: não poder desejar por iniciativa própria.
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Para aprofundamento: A MANENTI, Vivere gli ideali. Fra paura e desidério, EDB, Bologna 1988.

Educar para o desejo

Se as pessoas não vivem à altura dos ideais não é porque não queiram, mas porque não podem desejá-lo. Têm o futuro pré-anotado: dos pais que já ao colo programaram o seu destino, ou talvez na moda que propina as regras do que se há-de fazer e pretender, talvez do outro… Mas o facto é sempre esse: falta a capacidade de desejar automaticamente, de escolher livremente como gastar a própria vida. Sendo bloqueado o desejo, permanece bloqueada cada decisão pessoal. Na verdade, a acção responsável da pessoa começa com um desejo.
Como ajudar no acesso ao mundo dos desejos? (ma próxima reflexão)

Cantus firmus

Dietrich Bonhoeffer, numa das suas últimas cartas do cárcere de Tegel, poucos meses antes de ser condenado à morte por causa da firmeza do seu testemunho e da sua denúncia, escreveu assim ao amigo pastor E. Bethe: «É o perigo de cada forte amor erótico que se perca, para si próprio, a polifonia da vida. Ou seja: Deus e a sua eternidade querem ser amados com todo o coração; não de forma que fique comprometido ou debilitado o amor terreno, mas em certo sentdo como cantus firmus, em relação ao qual as outras vozes da vida soam como contraponto; um destes temas contrapontísticos, que têm a sua plena autonomia, e que são contudo relacionados ao cantus firmus, é o amor terreno (…). Onde o cantus firmus é claro e distinto, o contraponto pode desenvolver-se com o máximo vigor»*.
Esta imagem de Bonhoeffer ajuda-nos a conceber o celibato para o Reino de Deus como uma melodia que se o sacerdote canta como que “em uníssono” com o cantus firmus que é o amor de Deus. E ainda que o sacerdote não cante sempre “afinado” essa melodia, é chamado, no entanto, a aceitar que neste canto Ele manifesta a grande polifonia da vida do Reino.
A opção pelo celibato não pode ser só abstinência, mas opção positiva; não pode ser só ascética, mas estética; nem somente deve ser algo que deva ser só dito, mas também “cantado”…**
É esta alegria em cantar este louvor a Deus que Se manifesta do padre ou religioso que poderá ser um critério para avaliar a qualidade que quem fez esta opção de vida!
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* D. BONHOEFFER, Resistenza e resa. Lettere e scritti dal carcere (Resistência e submissão. Cartas e escritos da prisão), Milano 1988, 373.
** Cf. A. CENCINI, Per amore, EDB, Bologna 1994, p. 28.

Um Deus Amor que desce ao "tempo da vida comum" para fazer comunhão connosco!

A Solenidade da Santíssima Trindade mostra-nos um Deus que é Uno e Trino, é Comunhão, que nos ama com um amor que é ao mesmo tempo “eros” e “agape”*, um Deus que Se manifesta na natureza humana através dos desígnios da família e da diversidade.
É um Deus que se “delicia em estar no meio dos homens”**. Por isso, o desafio deste “tempo comum”, depois do “planalto” da Páscoa, é avançarmos ao encontro desta presença de Deus Pai, Filho e Espírito Santo, através de um caminho de abertura pessoal.
Não é fácil esta abertura, pois implica de cada um de nós quebrar algumas resistências da mente e do coração para o que devemos analizar os nossos desejos e valores professos.
No entanto, saibamos que o princípio desta experiência espiritual implica primeiro aceitar, para depois avançarmos na compreensão dos mistérios da Vida que Jesus nos veio revelar***. Diferente é a experiência dos sentidos, na qual precisamos de estudar e conhecer primeiro para depois fazermos a aquisição ou tomarmos uma decisão.
O Espírito guiar-nos-á zelosamente****, à medida que nos abrirmos a este desígnio do amor de Deus, no conhecimento da Sabedoria que vem do alto. Quando soubermos apreciar esta presença divina no tempo comum, então daremos também mais valor aos tempos fortes do ano, seremos também capazes de lidar com os momentos altos e momentos de crise da nossa vida, porque estamos conscientemente certos de que Deus Comunhão está!
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* PAPA BENTO XVI, Deus Caritas Est, n. 3.
** Pr 8,31.
*** Jo 16,12.
**** Jo 16,13.

Não te sintas diminuído!

Acabámos de viver o Pentecostes que faz a passagem entre o Tempo Pascal e o Tempo comum. Retomando o caminho deste tempo litúrgio, somos convidados a não deixar de invocar e de viver a festa do Espírito Santo! Afinal, este tempo presente é o tempo do Espírito que nos atrai para Deus Pai, por Jesus Cristo.

O convite a não te sentires diminuído significa que, para além de todas as hierarquias, tu também tens um lugar concreto que só pode ser opupado por ti, na Igreja e no mundo. És chamado a viver um ministério, quer dizer, a exercer um serviço em favor dos outros.

Observa os dons que do Espírito recebeste. Não fiques parado! É preciso desejar sem medo! Existe uma certa ansiedade ligada à descoberta consciente – em si e no ambiente – do novo, do estranho. Àquela exisitem ligadas resistências que não nos deixam crescer no sentido da transcendência. Muitas explicações psicoanalíticas de fizeram a estas resistências*.

Importa, pois, homem e mulher que queres autotranscender-te, ateres-te a esta dinâmica: 1. Conhceres-te por dentro, as tuas resistências, donde vêm, a que problemas estão ligadas? 2. Por outro lado, reveres os teus ideais de vida. Onde estão assentes? Já ponderaste so os podes alcançar e como? Enfim, que a tua oração seja marcada pela dupla certeza, diante das tuas debilidades: «Meu Deus, amaste-me primeiro!» e «Como posso, Senhor, resistir ao teu amor?»

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* Cf. A. MANENTI, Vivere gli ideali. Fra paura e desiderio/1, Ed. EDB, Bologna 1988, pp. 106-108.

O pensar psicológico

A psicologia do profundo, para além de observar e descrever os comportamentos, é já em grau de intuir nesses a presença de um substrato ontológico que faz de um facto psíquico um acontecimento humano. Em relação às cièncias empíricas e teóricas, trata-se de uma radical reviravolta no modo de ler a realidade. O pensar psicológico, sempre empírico e ligado aos detalhes que contêm o viver quotidiano, pode no entanto colher a essencial humanidade que, no banal, se exprime sem nunca coincidir com esse. Conhecendo a interioridade, única e irrepetível dos indivíduos, pode conhecer o funcionamento universal do coração humano.

Este pensar psicodinâmico mete a psicologia em diálogo inevitável com as ciências que definem a essência do homem. Segere também um método educativo que, enquanto estima o modo actual de viver da pessoa, provoca-a a adequá-lo à riqueza ontológica que ela possui por natureza*.
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* A. MANENTI, Il pensare psicologico. Aspetti e prospettive, Edizioni EDB, Bologna 1997.

O » Júlio « desafiou-me!

O desafio consiste em completar as frases.
Cá vai disto:

Eu quero: ser melhor!
Eu tenho: sede de Ti, Senhor!
Eu acho: nem sempre acho!
Eu odeio: a dispersão!
Eu sinto: -me bem!
Eu escuto: a música dos sentimentos e impressões profundos!
Eu cheiro: ao perfume que me ofereceram!
Eu imploro: a Tua Paz para o mundo!
Eu procuro: acender a minha lamparina de barro muitas vezes!
Eu arrependo-me: quando falo sem pensar três vezes!
Eu amo: Deus, a Igreja e a humanidade!
Eu sinto dor: que consigo imaginar que tu sentes!
Eu sinto a falta: do que não sinto!
Eu importo-me: …nem sempre me importo!
Eu sempre: tento não estar muito no virtual!
Eu não fico: se tu também não ficares!
Eu acredito: nas pessoas!
Eu danço: ao toque da caixa “surpresa”!
Eu canto: melhor com o coração!
Eu falho: quando me esqueço de Ti!
Eu luto: contra e a favor…!
Eu escrevo: muitas vezes o sinal de exclamação”!”
Eu ganho: sempre qualquer coisa quando arrisco!
Eu perco: sempre qualquer coisa quando não arrisco!
Eu confundo-me: idealmente com os mais simples!
Eu estou: em Roma!
Eu fico feliz: de te ver a ler este blog!
Eu tenho esperança: entre a fé e a caridade!
Eu preciso: ser mais de Ti!
Eu deveria: ser menos de mim!
Eu sou: um padre feliz!…
Eu não gosto: de escrever muitas vezes a palavra “eu”!

Com isto, já me conheces melhor!
E agora acho que tenho de passar o desafio a 6 pessoas!
As vitimas são:
1 – O primeiro lugar a quem tiver a bom vontade de participar;
2 – P. Carlos Cunha
3 – P. Helder
4 – P. Ângelo
5 – P. Filipe
6 – P. Paulo

A 7 km de Jerusalém

E se, no meio das contrariedades de uma vida aparente, fosses levado a Jerusalém “transportado” pelo desejo de encontrares uma resolução para os teus problemas e te encontrasses com o Mestre?
Este filme mostra-nos uma história assim, em jeito de romance (ver livro), com quem se repete o “caminho de Emaús” (cf. Lc 24,13-35). Neste romance, o personagem regressa à sua vida e relações com outro olhar, pensar e bater de coração, com uma missão…

Reflexão: não será que no dia-a-dia nos enontramos com o Mestre que se esconde no “momento fugaz” de uma palavra, iluminação, olhar, sentimento especial no coração, clarão na mente, não só nossos mas nos outros com quem convivemos…, enfim, num Sacramento, numa oração…?! Esse será um momento privilegiado para escutar o Mistério. No entanto, é preciso escutar. E não ter medo, porque “a contrapartida é a vida”!

O Todo num fragmento

O Evangelho deste Domingo VI da Páscoa (não esquecer que se celebra até ao Pentecostes!) convidou-nos a escutar a afirmação de Jesus: «Se alguém me tem amor, há-de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada» (Jo 14,23).
Cada sentimento, cada afecto, cada atitude, cada passo, cada olhar… que contenha este conteúdo evangélico dentro faz de nós um “fragmento” que contém a totalidade, porque é nas mais banais e concretas corcustâncias históricas e espaciais do nosso dia-a-dia que o Todo se mostra. É nas “janelas” do viver quotidiano que podemos perceber o mistério que se nos dá a conhecer: no tempo, no sorriso, na procura, na dor, na solidão, na insatisfação… (Cf. F. Imoda, Sviluppo umano, psicologia e mistero, Ed. EDB, Bologna 2005, pp. 25-48). É nestes fragmentos da nossa vida, às vezes marcada pela contingência da descontinuidade, que podemos “permanecer no amor de Deus”.

A glória de Deus…

é a kénosis* de Seu Filho!
Só a partir daqui é que «a glória de Deus é o homem vivo» (S. Ireneu). Hoje, no tradicional Dia da Mãe em Portugal, o Evangelho relaciona o mandamento do amor com o conhecimento do Pai. Contemplemos, neste dia, o amor incarnado nas nossas vidas, no qual, sejam quais forem as circunstâncias de cada pessoa, tiveram papel importante as nossas mães.
Amar significa «perder»**. Será esse o exemplo da mãe que eu mais admiro e contemplo. «Perder» os/pelos filhos, «ganhando» a felicidade deles para o projecto de Deus.
«A presença da perda é uma constante do desenvolvimento humano. Trata-se de uma perda afectiva, de segurança, e o seu grau de dramatismo depende, para além da precocidade do estádio no qual acontece, também do modo no qual ela é gerida, sobretudo por parte daqueles que se ocupam de acudir à pessoa no seu desenvolvimento»***.
Parabéns a todas as mães, pais e educadores (adoptivos, para além de carnais!) pela atenção que dão/deram sobretudo à escuta do interior dos filhos/educandos que acompanham. Como Maria, guardando tudo no seu coração e actuando de forma prudente e causativa…****
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* (Do gr. = esvaziamento). No NT, emprega-se para significar como o Verbo divino, na Encarnação, aceitou os condicionamentos duma natureza humana ferida pelo pecado, ainda por cima provada até à morte de cruz (Cf. Enciclopédia Católica Popular).
** Cf. Mt 10,39.
*** S. GUARINELLI, «L’ascolto di sé: equivoci e obiettivi», in: Tredimensioni 2 (2005), p. 270.
**** Cf. Jo 2.