Conforme se age, assim se sabe

“A Sabedoria foi justificada pelas suas obras” é o que nos descreve o Evangelho deste dia (cf. Mt 11, 16-19). Quer o que fez João Batista para preparar o caminho do Senhor, quer o estilo próximo e compassivo de Jesus estar no meio dos homens para os cativar ao seu Reino, nem sempre foi bem aceite pela humanidade. O povo costuma dizer: “conforme se toca, assim se dança”; é a melodia, a harmonia e o ritmo de uma canção que determinam um tipo de dança. Assim, no que toca à vida cristã, também a Palavra de Deus, os tempos da Liturgia e os sinais dos tempos que nos vão ditando a urgência de uma ação sempre concertada com o fim para o qual fomos criados. Pode acontecer que as nossas ações não transpirem sabedoria.
Poderá ser porque ainda não sentimos bem o que nos diz o Evangelho ou não demos o assentimento da nossa vontade Àquele Deus que Se fez próximo como pai e pedagogo em Jesus Cristo, dizendo-nos, pelos profetas, o caminho que leva à plenitude de vida (cf. Is 48, 17-19). Talvez a experiência da fidelidade da Igreja, feita por etapas diversas, também nos possa dizer alguma coisa, de forma a que não vivamos hoje ao estilo da Idade Média, porque não é essa a canção; não vivamos na época do Iluminismo, porque não é esse o enfoque…. A cada época, a sua medida, pedagogia e canção. Parece que o Papa Francisco nos está a tentar a marcar o ritmo, a cantarolar a melodia e a harmonizar a “música” para este tempo. Estaremos dispostos a entrar nesa dança…?!

O jugo paradoxal do Amor

Frequentemente, “autoridade” e “opressão” encontram-se na pessoa que não olha a meios para chegar a certos fins. O jugo que Jesus nos propõe (cf. Mt 11, 28-30), não nos pode oprimir, mas aliviar, porque apoiado numa autoridade cuja finalidade é a libertação da humanidade através de um não “meio” mas inteiro Amor. Por isso, Deus e a sua forma de atuar são incomparáveis. Porquê – mesmo na consciência da nossa fragilidade – fugir d’Ele? Ele partilha a sua autoridade aos que O amam, para, com ela, poderem compater o mal que os oprime. Foi por nós que o Mestre esteve sempre acimpa dos seus opressores, ora “transgredindo” contra as suas falsas “leis”, ora “transgredindo” o seu ser divino para Se compadecer de nós e nos libertar.

Vale mais 1 perdido que 99 seguros

É esta a lógica da pastorícia, na qual Jesus encontrou uma imagem para nos falar da grande misericórdia de Deus (cf. Mt 18, 12-14). A infinitude desta não tem a ver só com a quantidade que consegue abarcar, mas a qualidade de um amor concreto que é capaz de deixar a todos para estar atento e sanar um só que se perdeu. Jesus aproveita esta imagem porque sabe que as ovelhas não têm grandes defesas e não veem muito bem (nunca além dos cinco ou seis metros). A Igreja é o lugar onde nos podemos encontrar e deixar encontrar, para o que precisamos de lutar contra a vigente tendência do individualismo. Para a comunidade é uma perda grande, mesmo um que esteja afastado. Agora, imaginemos quantos não estarão afastados? Tem razão o Papa Francisco ao querer-nos como “Igreja em saída”, fazendo-nos perceber que o nosso valor está fora, naqueles que ganhamos para a família de Deus. Nem todas as “cegueiras” que levam ao afastamento ou à não aproximação de Deus são pecaminosas ou por vontade própria. Remédio para este tipo de cegueira pode ser o deixarmos de apontar para nós próprios (somos só “candelabros”), mas para Aquele que é a verdadeira luz. Sejamos bons suportes para que os nossos próximos possam, através do nosso exemplo, perceber que estamos ligados a essa Fonte.

De "Eva" à "Avé" Imaculada

Eva atira-nos para a serpente na justificação da escolha que fez. A Avé-Cheia-de-Graça atira-nos para Deus. Maria é o protótipo de todo o crente, figura da Igreja, transportando Jesus Cristo, na constância do seu SIM. Eva representa-nos na condiçãod e pecadores; Maria representa a possibilidade de acolhermos a herança a que fomos destinados: a de sermos como Ela, a Mãe que nos trespassa os “genes” espirituais da graça a que também todos nós fomos chamados. Não punhamos Maria Imaculada tão distante de nós a pontos de não podermos contemplar essa graça que precisamos de imitar; deixemo-nos transportar no seu “colo” de onde a graça divina se recebe como que por apego a um amor materno, fruto das mesmas entranhas que acolheram o Salvador. Maria é uma “brisa” no deserto do Advento, que nos acoita do sol que queima, para podermos a vir a olhar para o Sol que ilumina.

O deserto da verdade e da humildade

O Natal avisinha-se como promessa do cumprimento das surpresas de Deus para caca um de nós. E a visita de Cristo não se faz esperar. No entanto, o Encontro não depende só d’Ele; precisa que nos preparemos e nos deixemos ajudar; e, para isso, precisamos de pedagogos. O Evangelho deste II Domingo do Advento (Mc 1, 1-8) mostra-nos João Batista a fazer de pedagogo ou professor na arte do deserto, lugar onde aprendemos a desprender-nos de tudo aquilo que pode dificultar o acolhimento de Jesus que vem. Para descobrir aquilo de que não precisamos ou que nos atrapalha o encontro com Jesus Menino, só mesmo a coragem da verdade que se conta com a simplicidade do acontecimento do primeiro Natal.

Igreja: lua que guia na noite

A Igreja, desde os tempos antigos, é tida como o “Mistério da Lua”, pois transmite a Luz de Cristo que guia na noite da história. O poder de Cristo está na missão da Igreja, quando esta obedece ao Seu mandato de “expulsar os espíritos impuros e de curar todas as doenças e enfermidades” (cf. Mt 9, 35-10.1.6-8). A Igreja é esta fonte de abundante graça que o seu Pastor derramou nela, como a luz do sol se espelha na terra através da lua. Não admira que a Igreja tende a colocar-se contra tudo o que se opõe à vida. Mas, ao mesmo, tempo ela é chamada a estar na noite, ao lado daqueles que caminham às apalpadelas, orientando e não condenando. Deve ser a voz profética que indica “é este o caminho; segui por ele” (cf. Is 30, 19-21.23-26), próprio da solicitude aompadecida de Deus.

Sentinelas do Advento

Se és moderado e senhor de ti mesmo, vigia sobre as moções do teu ânimo e os impulsos do teu corpo, evitando todas as inconveniências; não os ignores pelo facto de serem ocultos; pois não importa que ninguém os veja, se tu de facto os vês. (S. Martinho de Dume, Séc. VI)

Também o profeta do dia (Isaías) proclama: “Os espíritos desnorteados aprenderão a sabedoria e os murmuradores hão de aceitar a instrução” (29, 17-24). Convém que a vigilância proposta como pedagogia do Advento comece por cada um em si próprio, reconhecendo o que se é e acolhendo Jesus na casa que é a consciência pessoal e o seu coração. “Ver” é o objetivo de todo o homem e mulher à face da terra, contando que se procure mais a visão interior, tantas vezes mais necessária do que a mera visão física para ver mais do que a realidade material. A cura não precisa de ser vista por alguém (cf. Mt 9, 27-31). Importa é reconhecer a sua necessidade e pedi-la com humildade e confiança. A fé já é a visão do coração, muitas vezes escondida pelas escamas de um olhar superficial e obscurecido por aquelas inconveniências de um ânimo pouco esclarecido e de impulsos desorientados. Moderação com a oração fazem a “sentinela do Advento” que é todo o cristão, atual incarnação do Emanuel-Deus-com-os-homens.

Rocha firme é a incarnação da Vontade de Deus

O que dá consistência à “casa” que é a vida de cada um é a “rocha” firme que é a Vontade de Deus. As vontades humanas são muitas vezes inconsistentes, precisamente por serem “vontades” contraditórias e ambíguas, mesmo dentro da mesma pessoa. Deus sabe o que quer e o que não quer para nós…  sempre! E acertadamente. O ser humano anda à procura e vai realizando o seu projeto de vida entre sucessos e fracassos. Por isso o Evangelho do dia (Mt 7, 21.24-27) sugere que regressemos sempre a uma “casa” com um alicerce firme que também poderíamos considerar de “lar”: o que vamos construindo com esforço, mas sobre a garantia da força de Deus. O contrário é permitirmos que se sedimentem em nós as “areias” que mais tarde, em vez de nos dar segurança, no-la tiram debaixo dos pés, no momento em que mais precisarmos dela. Palavras, mesmo que piedosas (“Senhor, Senhor!”), podwm ser somente “areias” se não forem acompanhadas de ações concretas onde se materialize a suma vontade d’Aquele que tudo pode sempre e para nosso sumo bem.

O sacrifício da boa vontade

Celebramos hoje a memória de S. Francisco Xavier que, depois de ter combatido a preponderância da sua vontade ativista no tempo de estudos em Paris com a ajuda de Inácio de Loyola, deu o seu testemunho de missionário com uma boa vontade humilde. A Palavra do dia mostra-nos Jesus a multiplicar os pães e os peixes para saciar a fome da multidão. A vontade dos discípulos seria, porventura, mais voluntariosa, indo comprar pão… Jesus ilumina com uma ação que não tem origem na força humana, mas na fraqueza, onde a força divina tem lugar. Ter boa vontade não é querer fazer o impossível, pois não está ao nosso alcance; é ser humilde e confiar que Deus fará o que Lhe aprouver para solucionar o sofrimento provocado pelas nossas privações (de bem-estar, de saúde, de paz, de justiça, etc.), inspirando-nos, às vezes com a ordem ou sugestão de alguém próximo, o que devemos fazer. Ter boa vontade é subir ao monte do crédito dado à opinião dos mais sábios (não arrogantes) para colaborar no que, à partida, nos custaria fazer. [Mt 15, 29-37]

Dupla fidelidade não é duplicidade!

Ainda ontem celebrámos na Liturgia os mártires vietnamitas SS, André Dung-Lac e Companheiros. Ao mesmo tempo, assistimos, nas notícias da atualidade, aos crimes fiscais de branqueamento de capitais que mancham a hsitória política do nosso país. Sabe-se que aqueles santos mártires foram homens exemplares nos seus deveres cívicos, ao mesmo tempo em que foram fiéis no anúncio da Boa Nova.
O que fará com que alguns homens nem sequer consigam ser fiéis às leis do próprio país? Estarão desorientados do ponto de vista dos valores mais básicos da sã convivência humana? O que os terá levado a estar à frente dos destinos de uma nação? São perguntas inquietantes cuja resposta não é fácil de dar sem ferir sensibilidades.
Assim, aqui fica a proposta para reflexão: é possível ser-se fiel a Deus não correndo o risco de se ser um duplo. Ser fiel a Deus e ser cumpridor das leis de um estado dá unidade de vida, pois na vida, segundo o Criador, tudo converge para a felicidade do ser em sociedade.
O que faltará a quem não é fiel a uma boa contribuição das coisas da ordem terrena?