A perfeição, do bem relativo ao bem absoluto

– Olá, Mestre!
– Olá, Jonas, como estás?
– Mais ou menos bem. Mas… como é que sabes o meu nome?
– Como?! Eu costumo chamar pelo nome. Nunca deste conta?
– Não, quando foi? Eu sou, de facto, muito distraído e não devo ter dado por isso…
– Mas não interessa, o importante foi encontrarmos-nos, não é?
– Sim, claro! Para mim é um prazer conhecer-Te. E tenho uma questão que tenho aqui na minha memória há muito tempo. Não te venho perguntar o que é preciso fazer de bom para alcançar a vida eterna, porque já mo disseste, mas ficou-me uma dúvida por esclarecer: porque me respondeste com a pergunta “porque me interrogas sobre o que é bom?” e com a afirmação “Bom é um só”?
– Porque gostaria que soubesses isso mesmo: Bom é um só, o Pai.
– Quer dizer que eu não posso fazer nada de bom para entrar na vida eterna?
– Não te quero dizer isso, mas lembrar-te somente que todo o bem que fizeres é só um bem relativo ao bem absoluto que só Deus é que pode realizar.
– Então, faça o que fizer será sempre limitado, tendo em conta que quero ser melhor… 😦
– Pensa bem: o que te proponho é que faças bem a tua parte.
– Ha! Então se for um exímio cumpridor dos mandamentos terei acesso à vida eterna.
– Sim, é verdade. A vida eterna é dos justos. Mas olha que a perfeição não é feita só de justiça!
– Então não basta ser justo?
– Já é bom, mas… o que farás dessa justiça, se ainda te sobram forças e tempo? Usa-los só em função de ti?
– Pois… isso também não seria justo! 😐
– Ora aí está! Estás a começar a entrar na minha lógica de pensamento. Se a perfeição dependesse do teu cumprimento do bem, seria uma justiça centrada em ti. A perfeição não depende absolutamente de nenhuma pessoa humana. Se quiseres ser perfeito, para além de seres um justo cumpridor de leis, terás que ser desprendido.
– Desprendido de quê?
– Daquilo que não te deixa ser perfeito como o Pai é perfeito. Sabes…? O problema é a imagem de perfeição que tens na cabeça. Quando te aperceberes que a verdadeira imagem da perfeição não está absolutamente neste mundo, onde somente se encontram centelhas minúsculas dela, então serás capaz de relativizar as coisas desta terra.
– Mas não é fácil, porque crescemos apegados a este mundo. : €
– Pois é verdade, mas foi por isso que Eu mesmo vim: para te mostrar um outro mundo, um mundo mais valioso.
– Então, Tu podes mostrar-me esse mundo?!
– Sim posso. Quares vir conhecê-lo? Vem!
– Quero, mas tenho de ir dizer aos meus pais e pensar nesse novo mundo e nas coisas que tenho de trazer…
– Olha… podes ir para casa pensar, mas não penses muito, pois quanto mais pensares mais vais calcular sobre o que tens de deixar. O mundo de perfeição que tenho para te mostrar não é feito desse tipo de cálculos.
– Pois, mas o que serei eu sem os meus pais, amigos e… as minhas coisas pessoais… e…
– Sem ti? Mas… para conheceres este mundo de perfeição bastas tu. Só preciso de ti, não preciso de nada teu. O caminho de perfeição que gostaria de mostrar-te não precisa das tuas coisas. Senão, não seria perfeição, não achas?
– Acho. Mas… posso ir pensar?
– Sim, podes.
– E posso voltar a falar conTigo?
– Sim, claro. Estarei sempre perto de ti. Basta que me chames.
– Então voltarei, para tirar mais algumas dúvidas. 🙂
– 🙂

Retomar o diálogo do "jovem rico"

Aproximou-se de Jesus um jovem e disse-lhe: «Mestre, que hei-de fazer de bom, para alcançar a vida eterna?» Jesus respondeu-lhe: «Porque me interrogas sobre o que é bom? Bom é um só. Mas, se queres entrar na vida eterna, cumpre os mandamentos.» «Quais?» – perguntou ele. Retorquiu Jesus: Não matarás, não cometerás adultério, não roubarás, não levantarás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe; e ainda: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Disse-lhe o jovem: «Tenho cumprido tudo isto; que me falta ainda?» Jesus respondeu: «Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me.» Ao ouvir isto, o jovem… (Mt 19,16-22a)

Bem, é aqui, no vers. 22a do cap. 19 do Ev. de S. Mateus, que fica uma encruzilhada. O jovem rico poderia ter desfeito os laços com as suas riquezas para ganhar a riqueza maior: seguir o Mestre pelo Mestre. Como esta encruzilhada, há muitas na vida dos jovens de hoje. Este Blog pretende ser uma tentativa de imaginar o diálogo-oração que ficou quebrado pela escolha errada do “jovem rico”, apoderado pela cegueira que não o deixava ver a verdadeira riqueza a que deveria apegar-se. Tenho a impressão que se o diálogo-oração continuasse, certamente que aquele jovem sertir-se-ía enamorado a tal ponto de poder seguir o Mestre para onde Ele fosse. Segui-Lo vocacionalmente é segui-Lo nas escolhas que ligam a Ele nas diversas circunstâncias da vida, pondo tudo o que se é e se tem ao Seu serviço.

Estas “Conversas com o Mestre” pretendem ser imaginativamente o diálogo em que o Mestre ilumina as encruzilhadas dos jovens de hoje, dando-lhes espaço para a transparência libertadora diante do Único que os pode justificar; um diálogo que resolva aquele conflito entre realidade e a aparência, entre as palavras e as obras, que dê mais consistência à busca e entrega dos jovens.

Diante daquele olhar penetrante, por vezes, há coisas (emoções, sentimentos…) que ficam por dizer e por integrar numa escolha vocacional. No diálogo-oração com o Mestre, retomando o diálogo do jovem rico em nós (não só feito de palavras, mas também de atitudes), os jovens de hoje poderão mais profundamente, sem fingimento como Natanael (S. Bartolomeu), e deixando tudo o que está para trás, seguir a Sua estrada, através daquela amizade que constrói para a plenitude. 
Apresento aos(as) meus(minhas) caros(as) leitores(as) o meu amigo Jonas, um jovem que também quer passar do Antigo para o Novo Testamento. Quem quiser conhecer a sua vida passada poderá ler no A.T. o livro que tem o seu próprio nome. Neste Blog tentarei ajudá-lo, e a todos os quiserem ser seus amigos também, a conhecer e, livremente, a seguir o Mestre da Vida e da Felicidade.