O acolhimento da Palavra de Deus e o tipo de resiliência que permite vir a dar frutos

Na parábola do semeador (Mc 4, 1-20), acontece aquilo que leva o Papa Francisco a dizer que Jesus Cristo é o primeiro exegeta, afirnando que «Não só as Escrituras antigas tinham predito aquilo que Jesus havia de realizar, mas Ele próprio quis ser fiel àquela Palavra para tornar evidente a única história da salvação, que n’Ele encontra a sua realização» (cf. Aperuit illis, n.º 6). Podemos observar também este atributo de Jesus no caminho de Emaús, onde abre a mente dos discípulos, explicando-lhes as escrituras (cf. Lc 24, 13ss). Assim, quer neste caminho entre a realidade da ressurreição e uma mente fechada, quer na relação entre o antigo e o Novo Testamento, quer entre a multidão a que exorta em parábolas e o pequeno grupo de discípulos a quem explica o seu significado, não existe contradição, mas uma aproximação diferenciada que nos pode ajudar ainda mais a ser Igreja «em saída», através de um estilo afetivo que permita uma vinculação a Deus mais autêntica, uma vinculação às pessoas mais pacífica e uma vinculação a lugares mais realista e serena.O psicólogo e etólogo francês BORIS CYRULINIK, considerado um dos pais da resiliência (capacidade das pessoas se sujeitarem a períodos de dor emocional e a situações adversas), encontrou nas suas pesquisas sobre o despertar da fé, que nos podem ajudar a perceber melhor as três formas que Jesus observa sobre a relação com a semente da Palavra de Deus. Vejamos:

a) Os que estão à “beira do caminho”, acessíveis a Satanás que pode tirar-lhes a Palavra, pode descrever aquelas pessoas que adquiriram um estilo distante de vinculação, amando a Deus de forma pouco expressiva (gostam de estar à beira, mas têm receio de entrar).

b) Os que acolhem a Palavra de Deus “entre espinhos” vivem estruturados, porventura, por um vínculo ambivalente, alternando-se entre manifestações de fervor e hostilidade para com Deus.

c) Os que “recebem a Palavra em boa terra” cresceram através de um vínculo seguro que lhes permite amar a Deus de uma maneira pacífica.

Estes três tipos de vinculação, ao mesmo tempo que se podem referir àqueles três tipos de circunstâncias em que o divino semeador semeia a Palavra, terão também que ver com três correspondentes graus de resiliência, resultado da convivência de um par-de-opostos no interior de cada pessoa, entre o contexto cultural e a memória pessoal forjada na história concreta. Por exemplo: felicidade/infelicidade, bem-estar/sofrimento, consolação/desolação (Santo Inácio), pertença à família de sangue/pertença à família que procura cumprir a vontade de Deus (cf. Mc 3, 31-35). Estes não são necessariamente contraditórios, mas de uma interação necessária para que seja possível viver a vida a pleno, conforme Jesus no-la propõe com a sua própria existência terrena.

Conforme as estatísticas nos permitem contemplar, há mais probabilidade de experimentarmos um impulso decisivo para Deus se tivermos feito a experiência da desolação; enquanto que um permanente estado de euforia pode cansar ao ponto de se abandonar a fé (sobretudo quando os seus ritos já não conferem ainda mais prazer imediato). É por isto que Jesus pediu sempre aos seus discípulos radicalidade em factos (é o mesmo que dizer “em frutos”). É este o verdadeiro termómetro da resiliência humana que consente de sermos seus autênticos discípulos.

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