A compaixão, do fazer-se ao ser próximo

[Leitura] L 1 Deut 30, 10-14; Sal 68 (69), 14 e 17. 30-31. 33-34. 36ab-37 ou Sal 18 B (19), 8. 9. 10. 11 L 2 Col 1, 15-20 Ev Lc 10, 25-37

[Meditação] A dicotomia entre o ser e o fazer tem muito que se lhe diga, tendo em conta a ambiguidade da tensão entre essas duas dimensões do viver humano. Umas vezes sublinha-se a importância do ser em detrimento do fazer; outras vezes, contrariamente, eleva-se o fazer diminuindo-se a importância do ser. Porém, feitas bem as “contas”, na relação entre o ser e o fazer nunca pode haver cisões que obstaculizariam o seu equilíbrio em favor do objetivo com que se vive, ao encontro do horizonte que se espera ou pelo qual se deixa atrair. À reflexão sobre estas duas dimensões de uma operação ainda se pode juntar a consideração sobre a relação ente a realidade e a aparência ou as ideias. É curioso que o Papa Francisco, quando, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, fala da dimensão social da evangelização (cap. IV), refere que O tempo é superior ao espaço [222-225] A unidade prevalece sobre o conflito [226-230], A realidade é mais importante do que a ideia [231-233]O todo é superior à parte [234-237]. Percebe-se, na ordem lógica que as primeiras expressões (tempo, unidade, realidade e todo) prevalece em relação às segundas (espaço, conflito, ideia e parte); porém, na ordem cronológica, é muitas vezes a segunda que leva a considerar a importância das primeiras.

Um dos belos exemplos de boa síntese entre o ser e o fazer é a Regra de S. Bento, celebrado há pouco tempo na Liturgia (11 jul.), sintetizada na exressão “Ora et Labora” (reza e trabalha), dando lugar à primazia da graça de Deus no (des)equilíbrio do ser humano e do fazer que o desenvolve. As ordens religiosas tiveram sempre uma quota parte muito substancial de presença social no mundo, apesar de as suas comunidades serem muitas vezes vistas como “fechadas”. Mas perguntemo-nos: será por fazermos muitas coisas que estamos muito presentes na vida das pessoas? Por outro lado: as nossas divagações espirituais ou inquestionáveis rotinas tradicionais terão alguma concretização prática na resposta aos problemas humanos deste tempo?

Por isso (e por mais coisas que não cabem neste pequeno artigo), uma verdadeira compaixão há de ter muito de doutrina e muito de prática, mas, sobretudo, tem de ser um sentir como o Mestre as coisas do Pai e as coisas do mundo. À luz do exemplo de Jesus, não é bom vivermos a vida a questionar o que vem primeiro − se o ser se o fazer; se a teoria se a prática, como se da relação entre o ovo e a galinha se tratasse −, mas há que viver na relação de cumplicidade com o ser de Jesus e o estar no mundo. Assim, o fazer será sempre um ensaio acessório que favorecerá um ser cada vez mais conforme o desígnio de Deus para com todas as suas criaturas, quanto ao horizonte de vida eterna que Ele nos prometeu.

Ser próximo dos que mais precisam há de ser um ponto de chagada de muitas tentativas operativas que, projetadas e avaliadas em espírito de comunhão, levarão a algum porto onde o Mestre espera para dizer: «muito bem servo bom e fiel». É isto que parece estar a acontecer com o barco-hospital Papa Francisco, no rio Amazonas, juntamente com muitos milhares de iniciativas que a comunicação social não publicita, para dar espaço ao aparente sucesso do fazer em detrimento da plenitude do ser a que somos chamados.

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